Quinta-feira, 17 de Junho de 2004
Davidson # 4

Alguns filósofos e historiadores da ciência lamentam que os nossos modos de falar não estejam ainda ajustados ao padrão científico moderno, no qual o esquema e a linguagem possam ser melhor entendidos segundo um formato extensional e materialista. Contudo, não é de crer que a ciência e a compreensão avançassem – com a possível excepção da moral – se tais alterações tivessem lugar. Mas, a nossa questão presente é a de saber se se justificaria considerar essas alterações da linguagem como uma mudança no aparato básico conceptual.

Suponhamos que no meu gabinete do Ministério da Linguagem Científica, eu quero que o homem novo deixe de usar palavras para se referir a emoções, sentimentos, pensamentos e intenções, e passe a falar de estados fisiológicos e acontecimentos mais ou menos idênticos aos dos estados mentais. Como posso eu saber que os meus conselhos são seguidos se o homem novo fala uma nova língua? Tanto quanto sei, as novas frases brilhantes, embora roubadas da antiga linguagem em que se referiam a sensações fisiológicas, podem na mente dos falantes jogar o mesmo velho papel dos antigos conceitos mentais. [Diria John Locke, sobre a maleabilidade semântica: «o imperador Augusto, com todo o seu poder, é impotente para mudar o latim; mesmo que decretasse o significado de uma palavra, o povo poderia sempre usá-la atribuindo-lhe outra significação.» – meu comentário]


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Sábado, 12 de Junho de 2004
Davidson # 3

A primeira metáfora requer uma distinção entre a linguagem do conceito e do conteúdo: usando um sistema fixo de conceitos (palavras com significados imutáveis) descrevemos universos alternativos. Algumas frases serão verdadeiras só por causa dos conceitos ou significados implicados; outras, por causa do modo de ser de cada mundo. Ao descrever mundos possíveis, jogamos com frases só deste segundo tipo.

A segunda metáfora (de Kuhn) sugere ao contrário um dualismo de uma espécie completamente diferente, o dualismo de um esquema total (ou linguagem) e um conteúdo por interpretar. A adesão a este segundo dualismo, embora não inconsistente coma adesão ao primeiro, pode ser encorajado por ataques ao primeiro. Vejamos como.

Desistir da distinção analítico-sintético, como básica para a compreensão da linguagem, é desistir da ideia de distinguir claramente entre teoria e linguagem. O sentido das frases é contaminado pela teoria sobre o que se suponha serem as frases tidas por verdadeiras.

Obtemos um esquema novo a partir de um antigo quando os falantes de uma língua passam a aceitar como verdadeiras todo um conjunto de frases anteriormente tidas por falsas (e, vice-versa, claro). Isto não pode ser descrito simplesmente como uma questão de passar a ver verdades em antigas inverdades. Porque o que se aceita, ao aceitar uma frase como verdadeira, não é a mesma coisa que se rejeita quando anteriormente a frase era tida por falsa. Uma mudança operou-se no sentido da frase porque ela pertence agora a uma nova linguagem.


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Sexta-feira, 11 de Junho de 2004
Davidson # 2

Estudar critérios de tradução é assim um modo de enfocar critérios de identidade entre esquemas conceptuais. Poderemos então dizer que dois povos têm esquemas conceptuais diferentes se falarem línguas impossíveis de se inter-traduzirem?

Podemos imaginar dois casos de insucesso: completo ou parcial.

No primeiro caso, provavelmente deveríamos sustentar que uma forma de actividade que não possa interpretar-se como uma linguagem na nossa linguagem não é um comportamento discursivo. Contudo esta conclusão – mesmo que seja uma verdade, como é credível que seja – não é muito apelativa porque não emerge como conclusão de um argumento.

Não pode haver dúvida que a relação entre a capacidade de traduzir a linguagem de alguém e a de descrever as suas atitudes é uma relação muito estreita. Contudo, até que sejamos capazes de dizer mais acerca do que é esta relação, será sempre muito obscura a tese contra a intraduzibilidade das línguas.

Segundo Khun, os cientistas que operam em tradições científicas diferentes (sob diferentes ‘paradigmas’) ‘trabalham em mundos diferentes’. Strawson, por seu lado, convida-nos a imaginar mundos possíveis não-actuais, mundos que podem descrever-se, usando a nossa linguagem actual, por redistribuição dos valores de verdade sobre frases em vários modos sistemáticos. A clareza dos contrastes entre os mundos depende assim de supormos fixo o mesmo esquema de conceitos, os nossos recursos descritivos. Kuhn, ao contrário, propõem-nos que pensemos em observadores diferentes num mesmo mundo, que o abordam em sistemas de conceitos incomensuráveis.

Assim, os vários mundos imaginados de Strawson são vistos ou apercebidos ou descritos segundo o mesmo ponto de vista; o mundo único de Kuhn é visto de diferentes pontos de vista.

 


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Quinta-feira, 10 de Junho de 2004
Davidson # 1

Donald Davidson

{Selecção e tradução livre do artigo de Donald Davidson sobre ‘o 3º dogma do empirismo’}

 

Os esquemas conceptuais são modos de organização da experiência; são sistemas de categorias que enformam os dados dos sentidos; são pontos de vista sob os quais os indivíduos, as culturas ou as épocas observam o fluxo dos acontecimentos.

Pode não haver qualquer tradução de um esquema para outro. A realidade ela própria será assim relativa a um esquema. Mesmo aqueles pensadores que perfilham um só esquema conceptual, estão dependentes ou sob a influência dessa ideia de um esquema conceptual.

Ora, o relativismo conceptual seria uma bizarra doutrina se tivesse em si algum sentido. O problema é que é difícil aumentar a inteligência das coisas conservando o grau de excitação que a sua ignorância suscita.

A metáfora dominante do relativismo conceptual – a de diferentes pontos de vista – parece revelar um paradoxo subjacente: diferentes pontos de vista podem fazer sentido somente se houver um sistema comum de coordenação no qual se projectem; porém, a existência de tal sistema comum repudia a pretensão de qualquer incomparabilidade dramática de pontos de vista.

Do que necessitamos é de estabelecer algum limite aos contrastes conceptuais, para impedir a travessia da zona do paradoxo da incomparabilidade.

Podemos aceitar a doutrina que associa a ideia de ‘ter uma linguagem’ com a de ‘ter um esquema conceptual’. Onde estes diferem, também as linguagens o fazem. Porém, falantes de línguas diferentes podem partilhar um esquema conceptual se houver um modo de traduzir uma linguagem na outra.

 


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publicado por vbm às 17:21
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