Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2003
Platão # 13

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O belo na singularidade do cosmos

Platão, já octogenário, interessou-se cada vez mais pela física, a astronomia e cosmologia, como mostra o Timeu. Contudo, mesmo neste último diálogo a cosmologia continua ligada à política. O mito da Atlântida ilustra os riscos que corre a Atenas do seu tempo, cidade marítima enriquecida pela supremacia do mar — em comparação com a antiga Atenas, pequena república, auto-suficiente, sem sonhos de expansão — e o perigo de o mar a levar à perdição, tal como «a ilha Atlântida foi engolida pelo mar e desapareceu para sempre.»[1]

No Timeu, a materialidade que é criada é a do mundo sensível, onde a ideia também se revela. Não se trata de uma criação ex nihilo. O informe é o receptáculo em que se inscrevem as «formas», sendo a matéria o puro limite da difusão do sentido, a fronteira do ininteligível.

Platão afirma a unicidade do universo. Nenhuma categoria de totalidade é aplicável ao mundo sensível, mas Platão transpõe a ideia de totalidade orgânica, própria do mundo dos viventes, para o domínio espácio-temporal, e assim pensa a matéria cósmica como o vivente no seu grau inferior. O modelo actual do Big-Bang, ressalvando embora que o universo não é um vivente, obedece contudo à mesma lógica de uma génese conforme a uma totalidade estruturada.

A ideia de totalidade orgânica conduz à de um princípio de harmonia, um centro, uma alma: há um problema de animação do cosmos, como, o há, em A República, de animação do homem e da Cidade.

A alma do mundo é uma mistura harmoniosa de dois pares de principais contrários: unidade e multiplicidade, identidade e alteridade. A alma do mundo é um princípio de vida, a qual é por si um dinamismo que é fonte de vida. A vida é um princípio de unidade, comum a todos os seres vivos, e presente em cada um deles. Pelo termo «unidade» Platão designa o que entende por «substância indivisível».

Mas a vida é também proliferação de seres vivos, é exigência de diferenciações que se multiplicam indefinidamente. Este vitalismo não se confunde com a ilusão fenomenal: a proliferação é constitutiva da vida que é génese de seres vivos. É isto que se refere pela palavra «multiplicidade» que designa a «substância divisível» de Platão.

Deste modo, a alma do mundo é um misto de substância divisível e de substância indivisível, e a vida aparece como a unidade de uma multiplicidade, mas também como a multiplicidade de uma unidade.

No ponto de vista qualitativo, a alma é também síntese da identidade e da alteridade, do permanente e do fluente, do mesmo e do outro. A identidade, «o mesmo» é o que assegura a permanência da forma, a continuidade da estrutura, graças ao que cada ser permanece o mesmo sob mudança. Ao invés, a vida não se mantém num organismo se não perdurar e não pode permanecer se não for fluente. Há permanência hereditária da forma, embora com mudança contínua da forma.

É a estrutura do vivente que permite compreender o sensível. A alma está situada entre o fluxo perpétuo do sensível e a permanência eterna do inteligível. O tempo não é uma simples sucessão de instantes, é um contínuo. E este existe na medida em que uma alma consciente reúne o antes e o depois num agora. A alma só existe graças à duração, mas o tempo não existe senão mediante a alma.

A alma do mundo desempenha um papel diferente. Ordena matematicamente o universo.

Na sua última filosofia oral[2], o Uno substitui a proporção, porque o problema do Uno e do múltiplo é o problema fundamental da physis.

A mudança que o cálculo dos irracionais introduziu no corpus pitagórico implica que os números já não são quantidades discretas que podem somar-se ou subtrair-se, mas grandezas contínuas que não são utilizáveis senão com a introdução do cálculo infinitesimal.

Assim, tudo o que admite a determinação da medida e do número relaciona-se com o Uno, o limite; o mais e o menos, a dualidade indeterminada do grande e do pequeno, a díade indefinida opõe-se ao Uno, e onde tal oposição é efectiva impede a realização de uma quantidade definida ou fazem-na desaparecer.

Mas, sempre que este resultado não ocorre, e a quantidade definida pode instalar-se, então a díade indefinida — o mais, o menos, o violento, o suave, o «mais quente» e o «mais frio» — foge do lugar onde estava e deixa de existir, uma vez recebida a quantidade definida; porque a «díade indefinida» sempre se movimenta e nunca permanece, enquanto a quantidade finita e definida é paragem, cessação de mudança. Há uma grande multiplicidade de mais e de menos, mas sempre no meio do devir e em relação a referências fixas.

É humano o espanto que o cálculo dos números irracionais causou face aos números inteiros e proporcionais conhecidos até então, e interessante notar que o cálculo infinitesimal dos limites — de Leibnitz e Newton, na viragem do século XVII-XVIII — realmente implica — como Platão o descrevia na sua linguagem — o “levantamento de indeterminações” por colapso de expressões algébricas semelhantes que se neutralizam, permitindo o cálculo definido dos limites nos demais termos de uma equação.

Mas, curioso é também aproximar aquele «acontecimento dos irracionais» da antiguidade à matemática contemporânea que (re)descobriu o caos por toda a parte, afoitando-se aos sistemas não-lineares «verdadeiramente caóticos», porque a “alma da Natureza é não-linear”, como dizia Enrico Fermi e James York entendia: “a primeira mensagem é que existe desordem”[3]. A palavra forjada para designar a singularidade do cosmos no seio do caos em que se “entrelaça” é sugestivamente o «caosmos».

Assim, Platão, na sua última filosofia oral, definia o Uno como o princípio que determina e limita, enquanto forma, enquanto ideia, o movimento indefinido da díade para o mais e o menos. A díade é uma potência indeterminada de multiplicação, quer pelo aumento dos termos de uma série, quer pela divisão de um termo. O Uno não é um número que se acrescente a si mesmo para dar dois; é o agente, a força activa de acrescento indefinido da díade, o princípio do múltiplo. Não se trata de aritmética, mas de física. O Uno, como ideia, substitui a proporção ou o igual enquanto princípio de conhecimento, e é princípio de difusão do ser no sensível múltiplo. Toda a diversidade da ousia, da realidade, seja de ordem sensível ou ideal, funda-se em dois princípios originais: o Uno e a díade.

A intuição central é a mesma que Galileu reencontra, e os contemporâneos prosseguem: o mundo é cognoscível more geométrico, é um jogo de relações, é matematizável.

Pode dar-se que o cosmos e a bela geometria da inteligibilidade com que o intuímos não passe de uma pequena singularidade do caosmos universal, mas — diríamos a concluir — assim como o amor por um belo corpo abre o caminho para a beleza mais elevada, assim também para a alma humana, “nenhum lugar é de geometria necessária se não for jubilosa


[1] Luc Brisson, De la philosophie politique à l’épopée. Le Critias de Platon, Revue de métaphysique et de morale, 1970, n.ª 4, pp. 402-438, cf. citação de Abel Jeannière, op. cit., p. 138. Continuamos, neste capítulo, a seguir o pensamento de Platão tal como descrito por A. Jeannière, especialmente nos capítulos 15 e 16, op. cit., “A ordem cósmica” e “A última filosofia oral de Platão”, pp 137-158.

[2] Cf. Léon Robin, op. cit., nota 20, supra.

[3] Vide James Gleick, Caos, a construção de uma nova ciência, Gradiva, Lisboa, 1989, p. 102.


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publicado por vbm às 14:19
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3 comentários:
De Anónimo a 18 de Dezembro de 2003 às 17:29
É uma tristeza ... só conheço o "CAOS" do James Gleick. Fernando
</a>
(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


De BRUNO a 2 de Dezembro de 2008 às 13:45
POR QUE NÃO SIMPLIFICAR TODA ESSA FILOSOFIA E TORNAR CLARO AOS LEITORES, SEJAM ELES FILOSOFOS OU NÃO, A ESSENCIA DO PENSAMENTO DO FILOSOFO?


De vbm a 6 de Dezembro de 2008 às 19:52
:) Mas, justamente, é um prazer este bailado da mente! Ler e reler esta sinfonia do uno e do múltiplo, a poesia no seio do caosmos é uma alegria sem fim oriunda do próprio universo


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