Domingo, 11 de Janeiro de 2004
Rawls # 4

Concepção política de justiça

Uma concepção política de justiça tem três configurações características[1]:

i.                     é uma concepção moral aplicável à estrutura básica da sociedade, i.é., às suas principais instituições sociais, económicas e políticas;

ii.                   é uma concepção apresentada de um ponto de vista independente, quer dizer não é apresentada como, nem derivada de, uma doutrina moral abrangente aplicada à estrutura básica da sociedade, como se esta fosse simplesmente um domínio em que tal doutrina se aplique. Ao contrário, a concepção política “é um módulo, uma parte constitutiva essencial, que se ajusta e pode ser aceite por várias doutrinas abrangentes razoáveis perfilhadas por cidadãos e instituições culturais da sociedade regulada por tal concepção.”

iii.                  o seu conteúdo é a expressão de certas ideias fundamentais entendidas como implícitas na cultura política pública de uma sociedade democrática.

Se a concepção política de justiça puder derivar-se somente das ideias latentes na cultura política pura, então ela pode ser objecto de um consenso de sobreposição, isto é, pode ser aceite pelos que perfilham diferentes doutrinas morais abrangentes, porque todos aceitam, embora por razões distintas, as ideias fundamentais que operam, com efeito, como premissas do argumento para a concepção de justiça. O que importa, escreve Rawls, é que “os próprios cidadãos, no exercício da sua liberdade de pensamento e consciência, e no âmbito das suas doutrinas abrangentes, encaram a concepção política como deduzida de ou congruente com, ou pelo menos não conflituante com os seus outros valores”.

 



[1] LP, I, §2, pp 39-42


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publicado por vbm às 12:31
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2 comentários:
De Anónimo a 12 de Janeiro de 2004 às 11:32
Safro, Também estes ensaios são fruto de seminários pretéritos. Bem gostaria, outrossim, ler-te nas reflexões dos próprios cursos de leitura ou debate em que tenhas participado. Fá-lo no teu blog, para te ouvirmos. Abraço, V.vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 12 de Janeiro de 2004 às 08:43
Há muito que aqui não vinha. Fiz assim (sem a tua permissão): imprimi o que escreveste entretanto para te ler com cuidado. Prometo, depois do seminário, dar-te uma achega ao teu (aparente) pensar solitário. Mais uma vez me perdi e não me encontrei aqui, desta vez, disso tenho a certeza, foi por falta de empenho. Virei sempre que me for possível. bjsafro
</a>
(mailto:sapo@sapo.pt)


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