Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2004
Rawls # 5

Comparação de modelos de liberalismo

Estas ideias habilitam Rawls a construir um modelo de liberalismo político e tolerância que representa uma alternativa às três ordens de razão da tolerância, acima descritas. Scheffler compara as relações do «liberalismo político» com os modelos de «liberalismo como modus vivendi» e o de «liberalismo como pluralismo de valores», que resumimos como segue:

·          o «liberalismo político» que o consenso de sobreposição modela não é um mero modus vivendi, um simples conjunto de acordos institucionais, mas uma concepção política de justiça, aceite — mas não defendida — por razões morais de uma ou outra natureza, decorrentes das visões abrangentes do mundo que cada um perfilha. Deste modo, o consenso de sobreposição beneficia de uma estabilidade maior do que o acordo de modus vivendi por se basear em considerações morais — também presentes na concepção pluralística de valor — e não em cálculos egoístas de interesses de grupo, vulneráveis a mutações no equilíbrio de poderes dentro da sociedade.

·          Á semelhança da tese do modus vivendi, e em dissemelhança da concepção pluralística do valor, o «liberalismo político» combina o respeito pela realidade da diversidade e dos desacordos factuais com a relutância em fundar-se em premissas morais controversas.

O fundamento moral do liberalismo na posição original

O objectivo de Rawls é dotar as instituições liberais de um fundamento moral, sem pressupor, de per se, qualquer perspectiva moral contenciosa ou controversa. Este desideratum filia-se na sua aspiração mais antiga, presente na Teoria da Justiça, de deduzir uma concepção substantiva de justiça a partir de um suposto conjunto “fraco e amplamente partilhado” de condições e constrangimentos que comporiam a denominada posição original. Este conceito é agora construído como um dispositivo de representação de algumas ideais fundamentais, implícitas na cultura política pública, que justamente são o objecto do consenso de sobreposição, pelo que conserva, ao menos em parte, a anterior pretensão de a posição original representar “pressupostos fracos e amplamente partilhados”

Assim, para o objectivo do projecto de auto-compreensão do liberalismo as vantagens potenciais do “liberalismo político” parecem evidentes. Contudo, em termos finais, o atractivo desta perspectiva teórica deve depender, pelo menos em parte, de ser ou não uma possibilidade realística alcançar um consenso de sobreposição sobre uma concepção política de justiça.

Samuel Scheffler analisa, então, pontos delicados da doutrina de Rawls, começando por registar que a inclusão da perspectiva do utilitarismo clássico no caso-modelo do consenso de sobreposição parece oferecer algumas dificuldades teóricas de compatibilidade com os dois princípios de justiça.

 


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publicado por vbm às 11:21
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