Terça-feira, 20 de Janeiro de 2004
Rawls # 13

Uma lei liberal dos povos

A fechar o seu artigo, Scheffler interroga-se da possibilidade de o liberalismo político, em vigor nas democracias ocidentais, estar em condições, ou não, de dar “apoio moral” ao desenvolvimento de instituições liberais em sociedades sem qualquer tradição democrática significativa. Rawls é muito reservado quanto a um tal prospecto, e defende que uma sociedade não liberal pode, apesar disso, ser “bem ordenada e justa”. No trabalho que Rawls desenvolve de criação de uma “lei liberal dos povos” não se requer que as sociedades não-liberais se tornem liberais. Rawls faz aliás notar que há diferença nas razões pelas quais as instituições liberais se enraízam na sociedade pela primeira vez, e as justificações para que tais instituições existam e se disponibilizem em estádios posteriores de evolução.

Contudo, Scheffler sustenta que, se doutrinas abrangentes razoáveis, que se desenvolvam em condições de liberdade, convergirem todas para princípios liberais, então o que pode ser dito àqueles que buscam fomentar instituições liberais nessas sociedades, é que essas instituições são o esteio mais duradoiro para suportar e encorajar o livre exercício da razão humana, entre as múltiplas visões doutrinárias que nela concorram. Porém, como é evidente, isto só pode sustentar-se de facto se o consenso de sobreposição for ele próprio uma possibilidade realística nas modernas democracias pluralistas. E isto conduz-nos de volta às questões levantadas precedentemente: pluralismo de valores? Modus vivendi em coexistência pacífica?  Sem uma resposta convincente a tais questões a dúvida persistirá, especialmente entre os que defenderiam o liberalismo na base de uma doutrina moral abrangente, em que a posição de Rawls esvazia os recursos morais do liberalismo sem conseguir, em troca, alargar a atracção justificativa e a adesão aos seus princípios.


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publicado por vbm às 10:28
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