Sábado, 31 de Janeiro de 2004
Putnam # 8

(5)   Referência e coerência: teorias da verdade

Mas, perguntar-se-á, que verdade é esta de compreensão sem identificação? É possível atribuir o predicado de verdade a proposições, asserções , frases.

As frases — como sucessão de símbolos numa certa linguagem —, distinguem-se das asserções — um certo uso da frase em que é feita uma asserção directa, distinto de um seu uso indirecto, sem compromisso com a sua verdade; v.g., “Ela foi ontem ao cinema” vs “Se ela foi ontem ao cinema, hoje não vai.”—, e das proposições que são o conteúdo expresso por meio de um certo uso de certas frases e susceptível de ser verdadeiro ou falso.

As duas grandes correntes de teorias substanciais da verdade são:

—      as teorias da correspondência: “X é verdade se e só se X corresponde aos factos (em particular, ao facto que X representa)” ou, como dizia Aristóteles: «Verdade é dizer o que é daquilo que é e o que não é daquilo que não é; falso é o contrário.»

—      as teorias da coerência: “X é verdade se for consistente (compatível) com um certo conjunto apropriadamente definido de outras proposições.”[1]

Se a teoria da verdade como correspondência exibe uma certa circularidade: X é verdade se corresponder a um facto exterior ao sistema em que X se insere com coerência; mas, — perguntar-se-á — o que é um tal facto senão o que torna X  verdadeiro?

A teoria da verdade como coerência, por seu lado, só resolve problemas cuja solução seja compatível com o conjunto adquirido de verdades, tendendo a privilegiar um “ideal arrumador” em detrimento de um experimentalismo ousado nas “linhas de fronteira” do que se exclui  e ignora.


[1] Vide Simon Blackburn, Dicionário de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 1997 [1994], p 453. Diz este autor que a teoria da verdade como coerência «tem dois pontos fortes: I) é verdade que testamos as crenças quanto à sua verdade à luz de outras crenças (entre elas crenças perceptivas); II) não podemos sair do nosso melhor sistema de crenças, para ver como está ele a sair-se em termos da sua correspondência com o mundo.»


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publicado por vbm às 11:55
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