Domingo, 1 de Fevereiro de 2004
Putnam # 9

Ora, se a linguagem mais primitiva realmente se inicia pela identificação da referência semântica dos termos, em breve a sua gramática depura uma coerência lógica que pode gerar a compreensão de verdades sem qualquer correspondência imediata, sensível, no mundo exterior.

Assim, uma verdade analítica — que se compreende pela simples apreensão do conteúdo dos termos —, é uma verdade na qual existe a sinonimia entre os termos. Deste modo, ela pode (◊) ser conhecida independentemente da experiência, e do ponto de vista epistémico, é uma verdade a priori. Pelo contrário, uma verdade a posteriori é a que necessáriamente (ð) é conhecida através da experiência[1].

Outra distinção relevante é a do par necessário / contingente. Se uma proposição não puder ser falsa em nenhuma das possibilidades em que poderia ter sido algo diverso mas não foi e não é, ou seja, uma proposição que é verdadeira em todos os mundos possíveis, diz-se uma proposição necessária que assim se distingue do caso de uma verdade puramente contingente ao contexto em que ocorre.

Regressando ao nosso exemplo, «Água é H2O» é uma proposição que não pode considerar-se analítica, não obstante ser verdadeira em todos os mundos possíveis[2]. H2O não pode tomar-se como sinónimo de água, porque este termo pode ser usado com plena compreensão pelos utentes da língua e, não obstante, eles podem não saber que água é H2O, pelo que os dois termos não são sinónimos. «Água é H2O» é, assim, uma proposição necessária, mas a posteriori do ponto de vista epistémico.

Assim se constata como o uso do termo «água» pelos falantes, antes de acedido o conhecimento da sua estrutura íntima (molecular), é um caso exemplar de compreensão perfeita de um termo, sem plena identificação da sua extensão. 


[1] Kant distingue os juízos analíticos dos sintéticos, observando que, nos primeiros, o predicado nada acrescenta ao conceito do sujeito, o qual, pela análise, é decomposto nos conceitos parciais, que já nele estavam pensados. Pelo contrário, os juízos sintéticos acrescentam, ao conceito de sujeito, um predicado, que nele não estava pensado e dele não podia ser extraído por qualquer decomposição. Assim, os juízos de experiência são todos sintéticos. Por exemplo, “todos os corpos são extensos” e “todos os corpos são pesados”: o primeiro é um juízo analítico; o segundo, um juízo sintético. Vide, Kant, Crítica da Razão Pura, trad. A. Fradique Morujão e Manuela Pinto dos Santos, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1985, pp 43-45.

[2] Saul Kripke introduziu um tipo de verdade «metafísicamente necessária» (verdadeiro em todos os mundos possíveis) que pressupõe a noção de referência sem qualquer restrição do que a determine ou defina o que é — digamos, uma pura e arbitrária indexicalidade. A posteriori, na proposição «água é H2O», a referência no mundo real é fixada por restrições operacionais e teóricas, explicadas pela química daltoniana e pelos factos contextuais sobre as intenções de referência dos falantes. Putnam (1981, não-1975), porém, considera que «ao assumir um mundo de entidades-independentes-da-mente, entidades-independentes-do-discurso» — e tal é o pressuposto da indexicalidade irrestrita — existirão, então, muitas «correspondências» diferentes que «representam possíveis relações de referência ou candidatas a relações de referência», numa quantidade ilimitada de teorias metafísicas «compatível com as mesmas frases verdadeiras, a mesma “teoria do mundo”, e a mesma metodologia óptima para descobrir o que é verdadeiro!» Vide Hilary Putnam, Razão, Verdade e História, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1992 [1981], pp 70-74.


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publicado por vbm às 11:44
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