Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2004
Putnam # 10

(6)   Realidade e apreensibilidade: Searle e Putnam

A divergência marcante entre Putnam e Frege é retomada por John Searle numa defesa revisionada das teses deste último[1]. Contra o primeiro, Searle defende que o significado «está na cabeça» e uma mesma intensão não determina mais que uma referência porquanto as condições de satisfação estabelecidas pelo conteúdo mental (cabeça) são justamente causadas pela experiência perceptiva da referência. Assim, as teses de Putnam e Searle confrontam-se nos enunciados seguintes[2]:

i)        quanto à extensão:

TSearle) ("W) ("x Î W)  : Em cada mundo possível (W), para todo o x pertencente a esse mundo, o significado de um termo de uma categoria natural desse mundo (no nosso exemplo: água) formula-se na seguinte equivalência: x é água « x é o mesmo líquido que aquilo que é referido por “isto” em W.

TPutnam) ("W) ("x Î W1) : Em qualquer mundo possível (W), para todo o x pertencente ao mundo actual (W1), o significado de um termo de uma categoria natural do mundo actual (no nosso exemplo: água em W1) formula-se na seguinte equivalência: x é água « x é o mesmo líquido que aquilo que é referido por “isto” no mundo actual W1;

ii)       quanto à intensão:

o         TSearle) os estados mentais (M) dos sujeitos ST & STG são diferentes; e são determinados por objectos diferentes H2O à M(ST); XYZ à M(STG); o conteúdo intencional é diferente porque determinado por objectos diferentes.

o         TPutnam) ST & STG estão “num mesmo estado mental” à  (que acarretam) “duas referências distintas: H2O & XYZ.

Ambas as teses fixam o significado dos termos pela equivalência de todo e qualquer objecto x ao da referência indexical intencionada por cada sujeito da experiência. Contudo, porque são distintas as referências na experiência de cada sujeito, os significados dos termos divergem correspondentemente. Mas, enquanto para Searle, os termos e a linguagem representam o mundo em que emergem, e só têm significado nesse mundo; em Putnam, o significado dos termos e da linguagem, ao denotarem os objectos do mundo actual, fixam a verdade dessa representação em qualquer mundo possível em que os objectos sejam da mesma natureza dos denotados pelas expressões e a linguagem do nosso mundo.

Os estados mentais dos sujeitos ST e STG, embora postuladamente similares quanto à aparência sensível de x, divergem, ao nível da comunidade linguística e científica dos falantes nos dois planetas, na compreensão coerente da natureza (estrutura interna) da «água», composta pelas moléculas distintas, H2O e XYZ, desse líquido nos dois mundos.


 

[1] Vide, John Searle, op. cit., p 249-262.

[2] Cf. notas recolhidas no seminário “Tópicos de Filosofia da Linguagem: Terra Gémea, Sentido e Referência” (2001) de Prof.ª Adriana da Silva Graça. Na tese de Searle quanto à intensão, porém, é de nossa responsabilidade a explicitação do externalismo metafísico de Searle, pelo que, na relação de implicação, fixamos os objectos do mundo exterior como antecedentes que causam os estados mentais dos sujeitos. As posições ontológicas e epistemológicas de Putnam e Searle são confrontadas mais adiante, e a posição pessoalmente perfilhada em tal disputa — ponto (7) do ensaio — é a de um minimalismo ontológico de «apreensores possíveis», inspirado em Nagel, conforme exposto por J. P. Monteiro em artigo adiante citado, e não coincidente com aqueles dois autores.


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publicado por vbm às 12:16
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2 comentários:
De Anónimo a 3 de Fevereiro de 2004 às 14:16
Não vai ser o caso, flyB. Mas 'gosto' mais de Putnam do que de Searle, realmente. vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 2 de Fevereiro de 2004 às 22:46
Sim, pois, eu "sou" mais Searle e tu "és" mais Putnam ;)

Ainda falta colocares aqui aquela "teoria do costume", que aparece sempre nestas situaçoes face a equacionamentos distintos, e que deve postular que o principio que mais fielmente se aplica ao processo em causa resulta de uma interacçao entre os dois "opositores" :P

Um classico...

Falta traduzir em linguagem matematica a dita "teoria do costume"...

Como achas que seria a equaçao resultante?

(eheheh...) flyingbabe
</a>
(mailto:flyingbabe@sapo.pt)


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