Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2004
Putnam # 11

A divergência notável entre as duas teses constata-se no efeito diferente que as duas comunidades linguísticas retiram do significado dos seus termos de categorias naturais, o que é revelador das concepções ontológicas e epistémicas, distintas em cada autor.

Enquanto para Searle o significado de água é circunscrito à indexicalidade da experiência perceptual do mundo em que ocorre, para Putnam (1975), o termo tem esse significado e é necessáriamente a verdade em qualquer mundo possível em que x revele possuir a mesma micro-estrutura molecular da água (H2O) do mundo actual. Na verdade, como vimos, para Searle os estados mentais são determinados pelos objectos externos, pelo que, formada a linguagem, esta é então determinante dos conteúdos intencionais e modos psicológicos dos falantes, pelo que os significados, que estão na cabeça, proporcionam o sentido das palavras que determina a denotação do significado. Para Putnam, porém, o significado de um termo não é independente da contibuição da própria natureza do objecto denotado para a compreensão do termo que o designa, razão objectiva, aliás, da sua verdade necessária em qualquer mundo possível.

Ora, esta importante diferença decorre de, para Searle, os estados mentais dos sujeitos, em cada mundo, corresponderem à apreensão — esta causada externamente pelos próprios objectos do mundo externo — do sinn dos termos da sua própria linguagem (natural e conceptual) que passa a determinar a forma — lógicamente corente, mas fechada — de os sujeitos se referirem a objectos do mundo; ao passo que em Putnam, os estados mentais dos sujeitos são determinados pela interacção com o mundo e seus objectos, cuja natureza (a essência interna do objecto) é o factor autónomo de referência do significado do termo e necessáriamente verdadeiro em todos os mundos co-possíveis com o referido objecto.

Assim, a posição externalista de Putnam, centrada na referência, destitui o sinn das palavras e da linguagem como determinante último do significado, porquanto este é ditado pelo que se conhecer, e revelar ser, a essência real do objecto referido pelo termo; ao passo que Searle, dos objectos reais que mobilam o mundo — e agem causalmente sobre os estados mentais dos sujeitos — apenas retem a inteligbilidade que a mente internaliza dos objectos que experiência. Deste modo, a mente fixa o sinn dos termos no corpo inteligível e coerente da linguagem que passa a determinar o critério de referenciação dos objectos exteriores do mundo em que a linguagem é formada.

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publicado por vbm às 14:09
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14 comentários:
De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 20:26
Discordo. O universo não foi nada construído para mim, e se o foi, então foi muito mal construído (lol). Concordo contigo que isso da 'superioridade humana' é de facto muito improvado... Tinha querido referir-me, porém, à nossa capacidade de entendimento de como as coisas funcionam por aí fora, segundo a causalidade explicativa a que habitualmente obedecem, e que o fazem sem qualquer consciência do seu próprio agir, quando connosco, seres animados, essa consciência reflexiva existe. É uma superior-idade de algum modo, embora não independa do que a torna possível, i.é., a própria dinâmica in-consciente dos eventos do universo! Magoo, o número de fevereiro da Scientific American - Brasil traz um artigo magnífico sobre a gravidade quântica em looping, que roda à volta das constantes de Plank... e que se forem provadas por experiências indirectas, vão 'espiolhar' os momentos antes do big-bang! (o Magueijo e outros estão no 'caso')vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 15:46
Se o "princípio antrópico" te interessa,o universo não te é indiferente. Foi "construido para ti" e de modo que o possas "tentar" comprender,pelo menos algo ...
Também eu "tenho uma enorme curiosidade em aperceber-me e perceber porquê e como as coisas se sucedem por esse mundo fora".Tento e procuro, mas não estou a olhar para o meu umbigo.

"Viva o antropocentrismo que afirme a nossa indiferença e superioridade sobre o nenhum pensamento da mecânica do universo."

Não concordo com o "antropocentrismo",por isso não aceito nenhuma "superioridade" humana.
A "mecânica do universo" rege-se por leis físicas,portanto porque falas em "pensamento"?
Procuro compreendê-la cientificamente,a pesar de todas as minhas imensas limitações.Fernando(Magoo)
</a>
(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 15:19
Não senhor. Não deslizo para princípio antrópico nenhum. Quando o fizer, avisem-me que eu logo retraço os meus passos. Claro que o princípio antrópico me interessa: que mais não seja para que todo o universo me seja indiferente porquanto - e tanto quanto - não compactue com a condição de viver de todos quantos amo, - eu incluído. Que universo mais medíocre e inconsequente, esse! Retribuir-lhe com a mais soberana indiferença é a única vingança e desprezo que merece. Mas, para além de tal emoção, eu tenho uma enorme curiosidade em aperceber-me e perceber porquê e como as coisas se sucedem por esse mundo fora, e aí, jamais compactuarei com pensamentos anelantes e desejantes, quero saber como as coisas são, apreciemo-las ou não, pois essa não é uma vitória menor sobre a estúpida impassibilidade do curso dos eventos do mundo. Abaixo o antropocentrismo que cega a compreensão. Viva o antropocentrismo que afirme a nossa indiferença e superioridade sobre o nenhum pensamento da mecânica do universo.vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 09:43
Vasco

Estás a "deslisar" para o "princípio antrópico".A "inteligência é nossa",pode não ser a deles e,por isso,a "base de entendimento" poderá ser outra.Fernando(Magoo)
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(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 01:17
Uma qualidade diferente e muito superior à inteligência (dos homens, suas máquinas e artefactos)... Mas, a 'nossa' inteligência é 'nossa' ou é a relação inteligível entre as coisas do próprio universo? Se houver uma lógica inteligível das próprias coisas e sua relações, ela submete-nos como o fará aos demais seres, por superiormente inteligentes que sejam. Assim, num universo comum, teremos a base para o entendimento entre «nós» e «eles».vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 00:35
Volto a insistir: porquê utilizar uma característica humana (a inteligência)como critério de avaliação desses hipotéticos seres?Fernando(Magoo)
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(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 23:39
Seres alienígenas mais inteligentes que nós... não fora o receio do mal que isso nos possa irremediavelmente causar, daria as boas vindas a um encontro sim com inteligências superiores à nossa. Era um enorme progresso na nossa própria evolução (se não fôssemos simplesmente aniquilados)vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 20:17
O texto é de Hawking e não meu.Estarei interessado em ler Saul Kripke.Ponho as mais sérias reservas de alguma vez haver contacto com inteligências alienígenas,até porque "a priori" partes de uma premissa terrena: a "inteligência". Não existirão,nesses pouco prováveis alienígenas,qualidades muito superiores à "inteligência" e que proporcionem aos seus possuidores potencialidades inimagináveis?Fernando(Magoo)
</a>
(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 19:06
Não me parece que a filosofia desfaleça por causa da matemática :). Nem parou com Wittgenstein ou se limitou à análise da linguagem natural ou simbólica. A ontologia ainda está viva! Vem aí Saul Kripke, - um filósofo ínsigne, da nossa idade, magoo! Com ele, a ontologia ressuscita! Sem filosofia não há preparação possível para o con-tacto com inteligências alienígenas! :)vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 18:27
To Vasco:

"No século XVIII, os filósofos consideravam todo o conhecimento humano,incluindo a ciência,como campo seu e discutiam questões como: terá o Universo tido um começo?
No entanto,nos séculos XIX e XX,a ciência tornou-se demasiado técnica e matemática para os filósofos ou para qualquer outra pessoa,à excepção de alguns especialistas.Os filósofos reduziram o objecto das suas pesquisas de tal modo que Wittgenstein,o filósofo mais famoso deste século,afirmou: "a única tarefa que resta à filosofia é a análise da linguagem".
Que queda para a grande tradição da filosofia desde Aristóteles a Kant!"

(Stephen W.Hawking,"Breve história do Tempo")
Fernando(Magoo)
</a>
(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


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