Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2004
Putnam # 12

Vimos que a lógica clássica de Aristóteles é comprometida com a forte ontologia de observação do mundo real. Qualquer linguagem mais formalizada não dispensa, contudo, a referência ontológica ao mundo em que emerge e de que fala.

Se bem que a verdade de uma proposição só alcance pleno significado quando coerente com um sistema teorético de compreensão do mundo, a realidade é apreensível segundo múltiplos aspectos que a tornam inteligível para os falantes que a apreendem.

A cognoscibilidade do real e, diríamos, a in-humanidade ontológica da realidade expressam , respectivamente, a aptidão biológica e o condicionamento físico do homem na natureza; ambos os factores são testemunho de uma incontornável anterioridade à competência linguística da espécie humana[1]; ora, toda a história da epistemologia ilustra a luta constante, de fronteira, do saber com a aparência, o erro e o desconhecimento.

Não é possível, nos quadros conceptuais em que flui o pensamento, — e por analogia com o próprio processo de descobrir e conhecer —, negar a possibilidade de, não só a realidade ter aspectos, porventura essenciais, que ainda desconhecemos, como de os ter incognoscíveis para nós, humanos, face às limitações da nossa própria constituição biológica e cerebral.

Entender a lógica da linguagem humana, buscar-lhe os fundamentos primários que ditarão a significação dos símbolos, frases, proposições em que toma expressão, implicará necessáriamente tomar posição onto-epistemológica sobre a realidade pré-linguística que contextualiza e condiciona a existência do homem no mundo.

Quer Putnam quer Searle se reclamam epistemológicamente do realismo, da crença no mundo exterior.

Um realismo “interno”, pragmático — o de Putnam — que defende ser a referência e a verdade ambos internos a teorias de interpretação da realidade.

Um realismo causal, metafísico — o de Searle — em que a verdade implica algum tipo de correspondência com os objectos independentes da mente, e se crê possível existir uma única descrição coerente e verdadeira do mundo.

Curiosamente, apesar desta distinta atitude epistemológica de partida, — internalista, a de Putnam; externalista, a de Searle —, as posições finais a que chegam, na interpretação da própria lógica da linguagem, mostram-se invertidas: externalista, a de Putnam; internalista, a de Searle!

Assim, o internalismo-pragmático do realismo de Putnam, em termos de episteme, “converte-se”, no plano ontológico, numa postura mais aberta, externalista, de aceitação dos próprios objectos como referência última da inteligibilidade da linguagem; enquanto em Searle, toda a sua metafísica externalista, é como que “curvada”, após o impacto que os objectos do mundo provocam na mente. A mente passa a reger, pela Intencionalidade[2] (própria de todo o vivente), a determinação do sentido e significação da linguagem, numa estrita autonomia internalista do pensamento, cujo tropismo é o de inteligir o real, tal como ele verdadeiramente é!



[1] Que, — é uma hipótese antropológica —, não pode ter sido praticada e desenvolvida antes de o homem primitivo ter mudado o seu habitat da floresta para a savana, onde o ‘império’ do silêncio terá permitido, finalmente, distinguir a diversidade fonética da linguagem articulada.

[2] Searle, numa formulação preliminar, diz que a Intencionalidade «é a propriedade de muitos estados e eventos mentais pela qual eles são dirigidos para ou acerca de objectos e estados de coisas no mundo.»; «Intencionalidade é direccionalidade». Vide, John Searle, op. cit., p 21-23.


tags:

publicado por vbm às 09:07
link do post | comentar | favorito

mais sobre mim
pesquisar
 
Setembro 2015
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3
4
5

6
7
8
9
10
11
12

13
14
16
17
19

20
21
22
23
24
25
26

27
28
29
30


posts recentes

...

...

Pascal & Espinosa # 2

Pascal & Espinosa # 1

...

Espinosa # 55

Espinosa # 54

Espinosa # 53

Espinosa # 52

Espinosa # 51

...

Espinosa # 50

Espinosa # 49

Espinosa # 48

Espinosa # 47

Espinosa # 46

...

A Caverna de Platão

Wittgenstein: Philosophic...

Ayer on Frege and Russell

arquivos

Setembro 2015

Fevereiro 2010

Novembro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Agosto 2006

Julho 2006

Junho 2006

Maio 2006

Abril 2006

Março 2006

Fevereiro 2006

Janeiro 2006

Dezembro 2005

Novembro 2005

Outubro 2005

Setembro 2005

Agosto 2005

Julho 2005

Junho 2005

Maio 2005

Abril 2005

Março 2005

Fevereiro 2005

Janeiro 2005

Dezembro 2004

Novembro 2004

Outubro 2004

Setembro 2004

Agosto 2004

Julho 2004

Junho 2004

Maio 2004

Abril 2004

Março 2004

Fevereiro 2004

Janeiro 2004

Dezembro 2003

Novembro 2003

tags

albert jacquard

ana de sousa

ana hatherly

ar rosa

astronomia

ayer

davidson

deleuze

dostoiévski

espinosa

eugénio de andrade

fiama

fotografia

françois miterrand

frege

gerard de constanze

gonzalo torriente ballester

hobbes

homero

hume

imagens

jl borges

khalil gibran

kripke

leibniz

maquiavel

nietzsche

pascal & espinosa

paul auster

paul valéry

peirce

philo-vídeos

platão

política

putnam

quine

rawls

russell

samuel beckett

sandra costa

scarlett johansson

searle

sophia de mello breyner

villaret

virgínia woolf

wittgenstein

todas as tags

favoritos

...

links
Míope, logo táctil. Gosto de ler e conversar, q.b. «Nada convem mais ao homem do que o seu semelhante.» Vasco
blogs SAPO
subscrever feeds