Sábado, 7 de Fevereiro de 2004
Putnam # 14

Ora, no mundo que nos rodeia há aspectos da realidade que conhecemos — os objectos do conhecimento científico —, outros que ainda desconhecemos — mas podemos vir a conhecer —, a par de, porventura, aspectos incognoscíveis por inacessíveis a qualquer sujeito humano.

Pode ainda dar-se — ignorámo-lo — que as “coisas em si” de que falava Kant, no sentido preciso da referida inacessibilidade ao sujeito humano, possam não o ser em relação a qualquer sujeito ou apreensor possível.

Se conviermos nesta possibilidade — em rigor não negável nos quadros conceptuais da estrita racionalidade humana — poderemos lógicamente estender a noção de realidade ao que quer que exista, real e concretamente, e possa ser concebido como acessível a um qualquer apreensor possível, mesmo inhumano. Nesta perspectiva, aceitaremos que «o existir só tem sentido “em si”, mas ser uma realidade só tem sentido “para” um apreensor.»[1]

Deste modo, embora as entidades que constituem o mundo sejam independentes da mente, e não dependam, para serem reais, do sujeito humano nem de qualquer apreensor real e efectivo, elas dependem, contudo, de apreendores possíveis e só possuem realidade para estes últimos.

Esta é uma “ontologia mínima” implicada pelo realismo comum e dispensada pelo realismo metafísico, — como o de Searle —, em que o mundo externo é encarado como uma realidade independente da mente, metafísicamente hipostasiada.

Por outro lado, a tese do externalismo metafísico de que há uma única descrição coerente e verdadeira do mundo, não é sustentável no realismo comum que sugerimos, porquanto cada espécie de apreensores possíveis selecciona os “seus apreensíveis”, numa descrição coerente à perspectiva do seu próprio ponto de vista.

Há, assim, lugar a algum tipo de correspondência, mas «concebida como constitutiva tanto dos apreensores como dos apreensíveis, na sua relação recíproca.»[2]

Ora, o realismo interno de Putnam extrema-se ao ponto de não ver qualquer sentido na questão: “Quais são as realidades do mundo?” se independente do nosso esquema conceptual de inteligir a realidade. Porém, o mundo não é o nosso mundo. Ele pode ser parcial ou largamente incompreensível para nós. O mundo não está dependente do nosso ponto de vista sobre ele, nem de qualquer outro ponto de vista. O mundo contem-nos. Ele é básicamente inhumano, e a direcção de dependência é, iniludívelmente, a do sentido de ajustamento da mente ao mundo, compreendamo-lo ou não.[3]

Não obstante, defendemos com Russell, numa perspectiva ontológica, a capacidade humana de surpreender os universais nos qualia do mundo[4], fazendo jus às possibilidades lógicas de o cérebro permitir à espécie humana inteligir o mundo. E se bem que para conhecer um objecto, seja necessário provar a sua possibilidade, o cérebro humano pode, contudo, pensar o que quiser desde que não se contradiga consigo próprio na cadeia do pensamento em que forja os seus próprios conceitos, ainda que eles possam não corresponder a qualquer objecto.

No fundo, — dizemo-lo a concluir —, a verdade tem a coerência da lógica não-contraditória e o homem tenta apreender o mundo tal qual ele é, não-dependente da sua apreensibilidade, e daí que, como afirmava Platão[5], «a verdade, o mais belo nome da realidade, é uma vagabundagem divina.» 

 



[1] Ibid., p 136.

[2]Ibid., p 140.

[3] Cf., Thomas Nagel, The view from nowhere, New York, Oxford University Press, 1989 [1986], p 108. Diz Nagel: «Any conception of the world must include some acknowledgement of its own incompleteness: () I claim that it may contain not only what we don´t know and can´t conceive, but also what we never could conceive — and that this acknowledgement of the likelihood of its own limits should be built into our conception of reality. This amounts to a strong form of antihumanism: the world is not our world, even potentially. It may be partly or largely incomprehensible to us not just because we lack the time or technical capacity to acquire a full understanding of it, but because of our nature(itálicos nossos)

[4] Cf. Hilary Putnam, Razão, Verdade e História, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1992 [1981], “Realismo acerca dos qualia”,  pp 131-135.

[5] Na Carta VII aos amigos e parentes de Dion, Platão discorre — com uma perspicácia notável da lógica e da filosofia da linguagem — sobre os cinco elementos que permitem a aquisição do saber: a noção; a definição; a imagem; a opinião; o objecto real (cognoscível). Dos três primeiros diz: o nome (noção) é a coisa expressa; não tem fixidez: o valor significativo da coisa expressa não varia com a modificação do nome. A definição é composta de nomes e verbos, logo nada tem de sólido por não ter fixidez (tal como o nome). A imagem é o desenho «que se traça e que se apaga», «a forma que se molda e que se destrói»: o objecto [do conhecimento] é coisa diversa de qualquer sua representação imagética. Restam o quarto e o quinto elementos do saber. Pela opinião [sobre o objecto cognoscível], a inteligência e a ciência emergem como uma classe única que não reside em sons pronunciados, nem em figuras materiais, mas sim nas almas [as pessoas] que se ocupam do objecto a conhecer: é só a inteligência, que por afinidade e semelhança, mais se aproxima do quinto elemento (o objecto); «os outros afastam-se mais». Por fim, o quinto elemento: o objecto real e cognoscível! Deste não se obtém perfeita ciência se não se compreendem as quatro representações anteriores, que exprimem a qualidade e o ser das coisas, através dos «fracos auxiliares que são as palavras». Cada um e todos os quatro modos dão à alma o que ela não procura; tanto no raciocínio como nos factos, sendo a expressão e a manifestação sempre refutáveis pelos sentidos, o homem é colocado num «impasse» e mergulhado na incerteza (…) Numa palavra, «quem não tem nenhuma afinidade com o objecto não obterá visão, nem graças à sua rapidez de raciocínio, nem graças à sua memória, porque nunca acharão raiz numa natureza desconhecida». É necessário aprender, ao mesmo tempo, o falso como o verdadeiro de toda a essência, à custa de muito trabalho e de tempo ( ) Só quando fizermos chocar uns com os outros, nomes, definição, percepções de vista e impressões dos sentidos, quando se discutir em discussões atentas, onde a inveja não dite nem as perguntas nem as respostas, é que, sobre o objecto estudado, vem a incidir a luz da sabedoria e da inteligência com toda a intensidade que podem suportar as forças humanas.

 

 


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publicado por vbm às 12:24
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11 comentários:
De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 20:12
A «próxima vítima»? Refereste a estes "contos" que aqui deixo? Se é isso, o próximo é um judeu americano notabilíssimo, Saúl Kripke. 'Destrona' Wittgenstein em dois tempos, por uma dose suplementar de cepticismo! Mas, deve-se-lhe o ressurgimento da ontologia, no último quartel do século 20. Fundamental, pois como diria Parménides, «sem o ser não acharás o pensar». Mas, vou ao Porto: interromperei a "emissão". O programa segue dentro de momentos! lolvbm
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(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 18:01
ihihih B) anseio pela proxima vitima :P e, relativamente ao khayyam, concordo contigo: nao ha nada mais importante que a vida e o amor... "meu bem" ;) flyingbabe
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(mailto:flyingbabe@sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 15:45
Tu és tão crítica para comigo que me dá um grande prazer teres gostado «da forma como 'matei' o Putnam»! :). O mérito não é meu, claro. Mas sucede que pude aproximar um artigo de JP Monteiro e Thomas Nagel ao próprio raciocínio de Putnam e assim, pôr a nu, as limitações que levanta ao próprio realismo que diz perfilhar. Contudo, Putnam é admirável e gostava de o estudar mais a fundo. Sobre a questão da objectividade da lógica ou da matemática... sabes, FlyB :) eu penso assim (com Espinosa): não é por uma premissa ser verdadeira e dela deduzirmos validamente um conclusão que esta se torna verdadeira. É, antes, porque a premissa e a conclusão são verdadeiras que nos é possível deduzir, validamente, a última da primeira! A inteligibilidade dos eventos é, por certo, uma narrativa dos mesmos, e se eles, eventos, não existirem «tanto pior» para os eventos! Possíveis, são; logo expressam qualidades do universo, e como tal são («algo»), exemplifiquem-se ou não no que existe! Quod erat demonstrandum. Quanto ao Khayyam, sinceramente, foi, é, uma paixão da juventude que nunca abandonei, porque que me importa o sonho e o universo se não há caminhos para coisa ou lado nenhum e não tenho outro bem senão quem ame e me ame.vbm
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(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 01:54
Quando digo "uma ilusao de optica", tambem me refiro à ilusao que nos é transmitida pelos outros sentidos, percepçoes. Também concordo que a realidade nunca sera inteligivel, a nao ser de um ponto de vista pratico. A propria ciência muitas vezes contradiz-se nos seus principios basicos quando, perante certas situaçoes nao demonstradas matematicamente, avança com um discreto "observa-se que", "constata-se que"... e quanto a explicaçoes logicas adeusinho...

Concluindo: o Khayyam é que sabe e o resto sao cantigas ;)

flyingbabe
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(mailto:flyingbabe@sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 01:43
Pois, é ai que bate o cerne da questao. Em ciência, tudo o que é afirmado deve ser "demonstrado" matematicamente, de forma "logica". Basta isso para que uma teoria seja aceite em determinada comunidade cientifica. Tudo o resto nao passa de filosofia ou de mera conjectura, hipoteses a testar.
Mas acho que o problema que se coloca ai, é o de até que ponto se pode considerar algo "real" apenas porque é demonstrado matematicamente? até que ponto essa logica nao é ela propria uma "ilusao de optica", tal como muitas fotos e outra informaçao que vamos obtendo do universo?
Ando a ler um artigo interessante sobre o assunto. Nao sei se vocês têm lido alguma coisa sobre isto ultimamente.

Vasco, gostei da forma como "mataste" o Putnam :P

flyingbabe
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(mailto:flyingbabe@sapo.pt)


De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 01:21
... é por isso que Khayyam tem razão! :) mas, eu gostava que o próprio caos fosse filosofável :).vbm
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De Anónimo a 8 de Fevereiro de 2004 às 00:28
"a essência desordenada e independente do mundo parece ser outra realidade para lá do inteligível"

Neste ponto,concordo.O resto é filosofia ... Fernando(Magoo)
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(mailto:blueberry@net.sapo.pt)


De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 23:32
O universo existe sim, eternamente, sem tempo, (nem espaço ao que se anda a descobrir...), mas os acontecimentos inteligíveis não pré-existem à possibilidade objectiva da sua inteligibilidade, haja ou não observadores para o compreenderem. Por isso que a essência desordenada e independente do mundo parece ser outra realidade para lá do inteligível é que me interrogo, com Heraclito e Khayyam se qualquer harmonia que por aí encontremos não será tão destituída de sentido quanto qualquer forma geométrica de esterco feita ao acaso.vbm
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(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 20:05
Longe de mim discutir filosofia contigo (ponto assente).
Porquê uma ilusão? Os eventos pré-existem,sob formas diferentes,consoante o observador,até quando não existe narrativa inteligível.
A entropia é a regra,mas tu e eu,somos oásis de ordem:organismos pluricelulares multicomplexos.

Também gosto de Khayyam,mas ele não é "panaceia universal".Fernando(Magoo)
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De Anónimo a 7 de Fevereiro de 2004 às 19:18
Mas não será isso uma ilusão, posto que os eventos inteligíveis não pré-existem às condições da sua narrativa inteligível? Onde fica a essência desordenada do mundo? Aqui, caro magoo, entra khayyam de novo :)vbm
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