Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2004
Kripke # 1

«As palavras aspiram ao inicial ao puro percurso
que não corresponde a nenhuma linha de universo
A sua liberdade é uma volúvel coerência
em torno do evanescente fulgor de um móvel oriente »

     (António Ramos Rosa, As palavras)


Dos jogos de linguagem em Wittgenstein ao paradoxo céptico de Kripke[i]


1 —  O paradoxo de Wittgenstein e a formulação de Kripke

É assim enunciado:


«uma regra não pode determinar uma forma de acção,
porque qualquer forma de acção pode ser conciliável com a regra»[ii].


Saul Kripke propõe-se desenvolver  de motu próprio a questão levantada por este paradoxo que considera ser o problema central das Investigações Filosóficas. Para tal, utiliza um exemplo matemático[iii], embora o problema céptico se aplique a qualquer expressão linguística significante. O seu exemplo é este: a palavra ‘mais’ e o símbolo ‘+’, denotam a função matemática da adição, definida para o domínio de qualquer par de inteiros positivos. Através da representação mental e simbólica, a regra da adição é ‘compreendida’ por mim. E de modo tal que, embora seja finito o número de adições que eu haja efectuado no passado, a regra de adição determina a minha resposta para o número indefinido de muitas novas somas do futuro, nunca antes efectuadas. Suponhamos, p.e., que nunca haja calculado ‘68+57’, nem a adição de quaisquer outras parcelas superiores a 57. É claro que ao executar a operação obtenho o resultado ‘125’, e que dele estou absolutamente seguro e confiante – possivelmente, após ter confirmado a correcção do cálculo. Ora, a minha certeza pode ser questionada por um céptico que sugira que, no modo como usei o termo ‘mais’ no passado, o resultado da operação para ‘68+57’, seja ‘5’. Claro que a minha ideia é a de aplicar, neste novo exemplo, a regra da função que sempre usei no passado; neste, porém, só calculei um número limitado de somas, com parcelas sempre menores do que 57. Quem pode, assim, negar que no passado eu não haja sempre usado ‘mais’ e ‘+’ para denotar uma função ‘quais’, simbolizada por ‘Å’ e assim definida:


                                    x Å y = x + y,  se  x, y < 57;

                                              = 5 , no domínio restante.        ?


 A solução do problema que esta interrogação levanta consiste em identificar algum facto que comprove e distinga que, no passado, eu apliquei realmente a função ‘mais’ e não a função ‘quais’ posto que todos os cálculo que realizei são exemplos tanto de uma quanto da outra função!



[i] É propósito deste ensaio analisar o pensamento de Kripke e Wittgenstein segundo a questão interrogativa seguinte: «Constituirá a chamada ‘solução céptica’, atribuída por Kripke a Wittgenstein, uma solução apropriada para o chamado ‘paradoxo céptico’, cuja formulação Kripke atribui a Wittgenstein? Como acedemos ao reino dos objectos abstractos? E o que vale isso para os falantes?»

[ii] Daqui se segue que, «então, também qualquer forma de acção contradiz a regra», logo, não é o caso que entre regra e [forma de] acção exista quer concordância quer contradição. Assim, a compreensão do que as liga tem de ser outra. Nenhuma interpretação da regra se distingue da acção que se lhe subordina e segui-la ou não é uma praxis a que se reduz a própria concepção da regra. Cf., Ludwig Wittgenstein, Investigações Filosóficas, trad. M. S. Lourenço, F. Calouste Gulbenkian, Lisboa 1987, §§ 201-2.

[iii] Vide Saul A. Kripke, Wittgenstein – On rules and private language, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, [1982], 10th printing, 2000, pp. 7-9.


 


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publicado por vbm às 12:11
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