Sábado, 14 de Fevereiro de 2004
Kripke # 2

2 —  O argumento céptico

Ora, provar-se-á que nenhum facto existe que permita tornar evidente e inequívoco o modo de aplicar a regra a qual não se distingue da interpretação da sua própria aplicação, como defende Wittgenstein. Há quatro teorias[i] que pugnam por apresentar um facto explicativo da regra e da sua compreensão (“grasping”): a disposicionalista, a da hipótese mais simples, a do estado mental interior e o platonismo fregeano, as quais Kripke refuta sucessivamente.

A teoria disposicionalista defende que o facto x [explicativo da compreensão e aplicação da regra] não reside na ocorrência de qualquer estado mental interior mas na disposição para aplicar a regra de um determinado modo e não de outro[ii]. Ora – retorquir-se-á –, mesmo que porventura assim fosse, ficaria por comprovar e garantir a correcção dos resultados que, dependentes da arbitrariedade de tais disposições, não seriam comparáveis com a resposta correcta cuja regra de cálculo fica indefinida nesta teoria. O mero erro de cálculo pode ficar obnubilado por a função ser extraída a partir da disposição que determina o modo de calcular a função que pode assim passar a validar erros sistemáticos. Também, a aplicação desta teoria à infinidade de pares de inteiros face à nossa finitude como seres mortais obriga a idealizar uma longevidade infinita para o cálculo dos valores da função, cujo modo de cálculo decorreria de disposições também elas ideais sem que os resultados se pudessem comparar com os obtidos com disposições actuais inexistentes. No fundo, o disposicionalismo apenas descreve a relação entre a atribuição de sentido a uma regra e a acção determinada por essa interpretação, em vez de elucidar o carácter normativo ou impositivo da regra que distingue entre o seu cumprimento ou infracção.

A teoria da hipótese mais simples – foi à função ‘mais’ que me referi no passado, porque a alternativa ‘quais’ é rebuscada e redundante – oblitera o ponto ontológico crucial do céptico: o de que não há facto x nenhum que fixe ou denote a referência da função ‘mais’ ou ‘quais’ ou vice-versa. Esta teoria pressupõe que há tal facto e decide-se pela explicação mais sóbria[iii].


 

[i] Seguimos neste ponto a dissertação de António Zilhão, in Linguagem da filosofia e filosofia da linguagem, Edições Colibri, Lisboa, 1993, p. 145-150.

[ii] Cf. Kripke, op.cit. pp. 22-37. A refutação da teoria disposicionalista estende-se igualmente à de uma regra cujo cálculo se incorpore numa máquina, porque tal função depende do programa criado que regista as intenções do programador, as quais podem interpretar-se de um modo ‘quais’, para além do carácter de objecto finito da máquina e erros de disfuncionamento que têm de distinguir-se do cálculo exacto - «The relation of meaning and intention  to future action is normative, not descriptive.», cf. pp. 33-37

[iii] Diz Kripke: «If we do not understand what two hypothesis state, what does it mean to say that one is ‘more probable’ because it is ‘simpler’?» , cf op.cit., p. 38.


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publicado por vbm às 12:15
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