Domingo, 15 de Fevereiro de 2004
Kripke # 3

A teoria do estado interior defende que a referência das operações do passado a ‘mais’ ou a ‘quais’ consiste num estado mental. Kripke refuta-a nas três variantes em que a subdivide: se o estado interior se caracteriza por ser uma experiência apenas acessível por introspecção ao respectivo sujeito que a experimenta, sem poder exprimir-se por uma composição de conceitos mais primitivos, então ele não serve para provar satisfatoriamente nenhum facto comum às operações do sujeito no (in)cumprimento da regra. Provamo-lo deste modo: admitamos que sim, que sempre uma experiência interior ocorre ao proceder a uma adição (e não a uma quadição); ora, de que serve essa experiência mental para um cálculo inédito de números de que não tive experiência até então? A menos que eu conheça previamente toda a extensão dos resultados da operação  ‘+’, a experiência deste novo cálculo, mesmo que repita a prática do procedimento anterior, acompanha-se de um resultado, que tal como o das experiências anteriores, tanto pode exemplificar uma operação ‘+’ quanto uma ‘Å’[i]. Numa segunda variante, a tese afirma que o facto x  é uma imagem mental. Mas – duvidar-se-á –, como é possível numa imagem finita, limitada no tempo, abranger num ápice a tabela dos infinitos valores da função para os seus infinitos argumentos? Se o fundamento de tal pretensão for afinal uma imagem mental limitada a uma secção finita de resultados da função, então, justamente esse é o argumento do céptico ao afirmar que, nessa secção, as funções da adição e da quadição partilham dos mesmos valores. Finalmente, numa última variante, a tese do estado mental defenderá que a experiência interior é algo de sui generis, dissemelhante  de qualquer outro tipo de experiência. Ora, de uma entidade assim misteriosa, poderíamos dizer com Spinoza «Se ( ) existisse algo na natureza sem qualquer relação com as outras coisas, ( ) dela nada poderíamos concluir»[ii], pelo que o argumento não obtém, e provavelmente não passa de uma designação a que nada corresponde.        

O platonismo fregeano afirma que os entes matemáticos não são meros eventos mentais, mas sim objectos abstractos que existem de modo real e objectivo, independentemente da própria consciência que deles tenhamos ou não. Os símbolos que utilizamos para sinalizarmos tais entes, de modo sensível à nossa consciência, são portadores de sentido (sinn), ele próprio também abstracto, e independente das consciências individuais que o apercebem. Ora, assim sendo, esta tese terá de esclarecer de que modo nós, enquanto seres finitos, acedemos a essas entidades objectivas e abstractas. Frege diz que temos uma percepção intelectual de tais entes. Porém, na nossa finitude, essa percepção é também finita necessariamente. Logo, só de modo parcial captamos os objectos supra-sensíveis que são in-finitos. Deste modo, a tese de Frege fica vulnerável às mesmas dificuldades que acima assinalámos à tese da imagem mental.


 

[i] A constante ‘57’, para x e y do exemplo de Kripke, pode decuplicar-se à enésima potência, com n tão grande quanto se queira, de forma a que o cálculo ocorra inédito para um par de inteiros nunca antes exemplificado, ou seja, a função ‘quais’ pode sempre ser a que na realidade se exemplifica, porquanto a função ‘mais’ só na dimensão de um futuro inatingível  - “the future is not yet”, como diria Hobbes – é provada como afinal inexistente.

[ii] Cf., Spinoza, Tratado da reforma do entendimento, ed. bilingue, trad. Abílio Queirós, Lisboa, Edições 70, 1987, §41

 


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publicado por vbm às 09:53
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