Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2004
Kripke # 4

3 —  A solução céptica

Não há assim nenhum facto x, seja do mundo externo ou no interior da mente, que possa constituir a intensão da adição quando se usa o sinal ‘+’. Kripke, na esteira de Wittgenstein, dá portanto razão ao céptico, mas, na base do modelo humeano, vai apresentar uma solução céptica do problema. Segundo Hume, ninguém, nem mesmo Deus, pode observar qualquer conexão causal entre um evento específico a e o evento específico b que lhe suceda. Apenas, a sua contiguidade e conjunção constante são dadas observar, nenhuma relação existindo entre dois eventos que possa significar essa noção de que um causa ou produz o outro[i]. Somente quando os eventos particulares a e b possam considerar-se subsumidos nos eventos-tipo, A e B, em que de modo generalizado todos os eventos do tipo A são seguidos por eventos do tipo B, é que podemos dizer e significar que a ‘causa’ b. Somente na medida em que os eventos específicos são inteligíveis como exemplos de eventos-tipo relacionados por regularidades constatadas é que os podemos pensar como ligados por uma conexão causal, a qual não é aplicável a eventos particulares.[ii] Deste modo, se inverte a prioridade de uma lógica necessitarista do antecedente condicional – ‘Se eventos do tipo A causam eventos do tipo B, e se ocorre um evento e do tipo A, então segue-se-lhe um evento do tipo B’ – para um espírito de observação das condições de assertibilidade da contra-positiva da consequente condicional – ‘Se um evento e do tipo A ocorre sem que lhe suceda um evento do tipo B, então não há uma conexão causal entre os dois eventos-tipo’. Ou seja, é pelo costume ou hábito da regularidade sucessiva dos eventos, que mudamos de uma suposição da casualidade para uma convicção de causalidade.[iii]



[i] Cf. Kripke, op.cit. pp. 67-8; 93-4.

[ii] O que, em termos de realismo platónico, poderia compreender-se por os objectos físicos serem desprovidos de qualquer substância sui generis, não sendo mais do que tropos ou feixes de propriedades, estas sim, entidades primitivas constitutivas do ‘mobiliário do mundo’, por algum jogo atomístico de probabilidade na  formação de conjunções viáveis de propriedades das quais se possibilitariam os objectos individuados.

[iii] A capacidade de sobrevivência dos seres vivos depende claramente da adequação ao respectivo habitat, em que se substancializa o princípio humeano do hábito ou costume. Há um sentido inato de similaridade em todas as espécies animais. Dizia Quine, “as criaturas que se desviam notoriamente do número médio de repetições — suficiente para mudar de uma hipótese de casualidade para uma convicção de causalidade — têm a tendência infeliz, mas louvável, de morrer sem deixar descendência”. E, de facto, o mundo é regulado por causas; ser sagaz é ser sensível à repetição.


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publicado por vbm às 12:20
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