Sábado, 21 de Fevereiro de 2004
Kripke # 7

Desta evolução de pensamento se justificaria, segundo Kripke, a «substituição pelo segundo Wittgenstein de uma semântica baseada em condições de verdade por uma semântica baseada em condições de asserção.»[i] Embora esta reinterpretação céptica possa criticar-se por excessiva, face aos propósitos declarados do próprio Wittgenstein de que o seu novo ponto de vista não pretende desenvolver uma nova teoria do sentido, mas apenas descrever como funciona a linguagem dos falantes, cuja unicidade, - provocada por ilusões gramaticais -, é rejeitada em benefício da clarificação que a comparação dos diferentes jogos de linguagem proporciona para a determinação das condições em que cada proposição faz sentido[ii]; o certo é que assiste legitimidade a Kripke em procurar encontrar, seja no primeiro seja no segundo Wittgenstein, aquilo que, na linguagem, se ajusta ao conceito de «verdadeiro» ou  aquilo a que se ajusta o conceito de «verdadeiro».[iii] E, nessa pesquisa, parece inescapável uma conclusão céptica, dada a subdeterminação de qualquer pensamento ou teoria face à realidade que se queira explicar[iv], além da dependência de qualquer expressão linguística da gramática que se constitui com o seu uso e que regula o seu significado em cada contexto adequado. No fundo, recaímos na incontornável questão platónica da inteligibilidade do real e do apelo a que a linguagem vá sempre além de si própria na concepção inteligível da existência objectiva.

Na concepção do cognitivismo platónico, que insiste e persiste em toda a linguagem, mantém-se  perene a interrogação humana sobre o que é o mundo que nos contém.


[i] Cf. A. Zilhão, Op. cit., p. 181.

[ii] Cf., L. Wittgenstein, Op. cit., §109; 117; 130.

[iii] Cf., L. Wittgenstein, Op. cit., §136.

[iv] Confronte-se com o que refere Dagfinn Follesdal no seu artigo “Indeterminacy and Mental States” (1988) a propósito do sentido (meaning) das expressões linguísticas: «As Quine has pointed out, the situation ( ) is parallel to the situation of empirical science, where scientific theory is underdetermined by the evidence.This is simply a general feature of the hypothetico-deductive method: as long as our evidence does not pertain directly to the individual hypothesis, but only to their observational consequences, the hypothesis are underdetermined by the evidence.”(sublinhados nossos)

 


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publicado por vbm às 16:25
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