Quarta-feira, 31 de Março de 2004
Ainda Platão # 17

8 — Argumentos pró e contra o realismo aristotélico

Como vimos acima, a tese aristotélica pode ser verdadeira mesmo que porventura se demonstre a falsidade do RI. Assim, os argumentos contra o RA têm de ter as respectivas teses por alvo. Não obstante, a eventual demonstração de invalidade do RI, retira ao RA um dos seus atractivos mais apelativo: a sua compatibilidade com uma explicação naturalista da realidade.

O Realismo Imanente defende que “todos os universais têm de algum modo uma localização no mundo físico, o mundo dos particulares concretos que os exemplificam”, cf. p 4 acima. Especificamente, os universais estarão localizados nos sítios onde existam os particulares concretos que os exemplificam. Como tal, são partes, estão nos particulares que os exemplificam. Ora, as partes espaciais de um particular, tal como o próprio particular, é um objecto irrepetível. Nessa qualidade, como pode, então, estar, ser parte, de muitos outros particulares, numericamente distintos? É impossível. Logo, os universais não podem nem ser partes espaciais, nem partes espaciais do que quer que seja; tem de ser outro o modo de os universais estarem presentes no mundo físico dos particulares concretos.

No mundo físico, no caso de objectos materiais, uma e a mesma coisa não pode estar integralmente presente em sítios diferentes ao mesmo tempo; e, também, duas coisas numericamente distintas não podem ocupar, ou estar presentes, no mesmo sítio ao mesmo tempo. Ora, se aceitarmos que estes princípios são uma condição necessária a satisfazer para que algo tenha uma localização espácio-temporal, então concluiremos que os universais não são localizáveis no e-t.

A maneira de evitar a conclusão deste argumento — argumento das partes — é dizer que os universais estão presentes nos seus exemplos, e daí, localizados onde os seus exemplos se situem ou ocorram no mundo físico. Para tanto, argumentar-se-á que os universais podem considerar-se como partes dos particulares que os exemplificam, numa forma de composição que não é mereológica. Assim como um particular concreto, uma pessoa, p.e., é constituída de partes espaciais ou temporais, também o é por diversos universais, as qualidades que nela estão presentes, único modo de os universais estarem situados nos particulares.

No limite, a defesa dos universais perante a dificuldade da imanência seria resistir e abandonar o idioma da localização — o que prejudicaria a explicação do naturalismo.


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publicado por vbm às 00:02
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