Sexta-feira, 2 de Abril de 2004
Ainda Platão # 19

9 —  (----->) Conclusões sobre qual a tese realista com menores desvantagens

Ao caracterizarmos o ser pelas qualificações (a) e (b) apresentadas no ponto 1., mantemos oculta uma conjunção implícita, qual seja a de o objecto assim definido ser compatível com algum observador possível (z) do objecto existente (x) o qual percepciona (O) pela propriedade (P) :  (a*)  $y  x = y Ù$z  Ozx; (b*) $P  Px Ù$z  OzxP.

Não pretende esta conjunção introduzir qualquer forma de relativismo na concepção do ser, mas apenas excluir do real, «a coisa em si» kantiana que embora «existente em si», ao ser incompatível com qualquer observador, não é real, nem realidade para ninguém.

Também não se pretende, com esta restrição, retirar à ontologia a sua independência metafísica face à temática de que se ocupa a epistemologia; antes, o objectivo é distinguir o objecto inteligível e o seu cosmos do caos ininteligível, pura multiplicidade sem forma ou propriedade, o «existente em si».

De algum modo, a caracterização (c), ao ancorar-se numa linguagem, apela para a conjunção do observador possível que reivindicamos. Porém, o flirt em que se compraz, de um nominalismo de predicados, não é confiável para subscrever uma radical autonomia do ser face ao observador, cuja estatuto é o de mera possibilidade e compatibilidade com os objectos do mundo e não forçosamente uma existência efectiva.

Isto posto, é nosso entendimento que as propriedades dos objectos existem previamente à própria existência destes. Os objectos, na sua individuação e identidade, existem; logo, são possíveis. Esta condição, a meu ver, devem-na ao facto de serem desprovidos de qualquer substância sui generis e reflectirem tão só o tropo ou feixe de qualidades que os individuam.

O problema das propriedades universais estarem localizadas fora do espaço-tempo, levanta uma questão que obscurece notavelmente a sua própria solução. Na verdade, nada do que ocorre no universo está fora do espaço-tempo, entendido este como ‘tropismo’ ou a história do próprio universo, e toda a ontologia dualista é profundamente inconveniente. Nenhum objecto é inteligível se desprovido de atributos que o individuem, os quais são primitivos ao objecto assim possibilitado. Ser real é dispor de tais propriedades e individuadamente ascender à existência. A expressão “fora do espaço-tempo” não pode, a meu ver, ser entendida como exterior ao universo, mas sim como existente em abstracto, num reino ontológico irredutível ao mundo físico ou aos estados mentais dos observadores inteligentes (os quais, em termos de possibilidade, não se restringem ao homo sapiens). No caso humano, o chamado 3º reino, onde residem os objectos abstractos, é, naturalmente, acessível por cognição tal como a bio-sociologia e a história humana das civilizações a explicam. Isto não obsta a que admitamos como possível que outros seres inteligentes possam aceder a idêntico ou superior conhecimento abstracto de como o mundo é. O 3º reino, como o conhecemos, é ‘frequentado’ segundo a capacidade e aptidões racionais próprias de cada forma de vida, viabilizada em cada cultura e civilização.

No plano realista, a liberdade conceptual de inventar objectos abstractos, numa operatória simbólica prévia e subtraída com sobriedade aos constrangimentos empíricos é, na minha opinião, uma condição de criatividade e investigação, de experiência de pensamento, qualitativamente superior às limitações do realismo aristotélico, e como tal, preferível.


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publicado por vbm às 00:04
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