Quinta-feira, 15 de Abril de 2004
Frege # 9

A autora faz a resenha desta questão (pp. 240-252) em torno do debate travado entre Bergmann, Grossman e Klemke cujas posições resumimos como segue:

Bergmann:- Frege, ao englobar a noção de conceito (universal) na de função, inclina-se para uma ontologia nominalista:

Uma função, como realidade incompleta, insaturada, de fraco estatuto ontológico, na relação com os seus argumentos opera uma aplicaçãomapping») de cada membro de uma de duas classes sobre um, e só um, membro da outra classe. A regra de aplicação é menos tangível do que as coisas a que se aplica. Estas exemplificam a relação de aplicação, a qual sendo ontologicamente mais fraca do que a relação de exemplificação, deixa a claro a tendência nominalista da ontologia fregeana.

Klemke:- Para Frege, o conceito, embora não nomeado é, no entanto, a referência de um predicado gramatical. Como tal, o conceito tem uma certa entidade ontológica.

A referência não coincide nem se esgota com a noção de objecto. Além dos nomes próprios e das expressões completas, as expressões incompletas também têm uma referência. Esclarecido que os referentes dos conceitos não se identificam com as suas extensões, que o conceito (universal) não se dilui nos objectos que subsume, ele tem um estatuto ontológico próprio, distinto da classe dos indivíduos que o exemplificam. Como tal, na dicotomia referência / não-referência, pertencerão ao primeiro domínio, o dos objectos, os indivíduos, números, valores de verdade, extensões, correlatos conceptuais e funções; ao segundo domínio, o da não-referência, pertencem os sentidos e os pensamentos. Assim, no plano semântico, os conceitos estão do lado dos objectos e partilham com estes o que porventura haja de (in)decidível quanto ao realismo metafísico.

Grossman:- Para Frege, embora os conceitos não existam em termos de localização espácio-temporal, eles são reais e podem ser apreendidos pela mente.

Frege utiliza o predicado existe com dois significados: i) quando pretende saber se um nome próprio refere alguma coisa; ii) quando se trate de saber se um conceito subsume ou não algum objecto. Ora, Frege argumenta que um termo conceptual não refere uma extensão, mas sim um conceito, mesmo no caso de ser nula a extensão, ou seja, o caso em que nenhum objecto existe que exemplifique o conceito. Assim, é claro que existem objectos e existem conceitos. Mas, existem de modos distintos, dado que os objectos do mundo exterior se localizam no espaço e no tempo e são captáveis pelos sentidos; enquanto os conceitos, embora existentes e dados (não produzidos) à mente estão localizados fora do espaço e do tempo. O realismo peculiar de Frege confere aos conceitos um estatuto ontológico de objectividade que, porém, é nitidamente distinto da actualidade: os conceitos são objectivos, reais, mas não são completos, saturados: não são objectos. A uma expressão incompleta corresponde algo na realidade que não sendo um objecto é no entanto uma propriedade ou um aspecto de um objecto, ou uma relação de um objecto com outro(s). O não-nominalismo do sistema de Frege radica assim num  plurívoco critério de existência que admite aplicável esta noção para além dos objectos e dos  indivíduos completos em si.


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publicado por vbm às 13:22
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