Quinta-feira, 6 de Maio de 2004
Quine # 15

Ora, a dificuldade logo surge porque, embora conheçamos quais as expressões a que as regras atribuem analiticidade, ignoramos o que é que as regras atribuem a essas expressões. Ou seja, para entendermos o idioma ‘um enunciado é analítico para linguagem L0 se e só se...’, temos de entender antecipadamente o termo relativo ‘analítico para...’ e a questão geral ‘S é analítico para L’, com ‘S’ e ‘L’ variáveis.

Em alternativa, na verdade, podemos encarar a regra como uma definição convencional e criar uma notação, p.e., ‘K’, para o símbolo ‘analítico-para-L0’. Assim, para um qualquer conjunto K, M, N, etc. de enunciados em L0, K distingue-se das demais classes porque a sabemos de enunciados ‘analíticos-para-L0’, mas não que os compreendamos como ‘analíticos’ nem como ‘analíticos para’. Por conseguinte, mesmo no domínio ‘L’ das linguagens artificiais, a analiticidade não fica explicada.

Em todo o caso, de facto, nós conhecemos o bastante acerca da intenção da significação de ‘analítico’ para saber que os enunciados analíticos sempre se supõem verdadeiros.

Construamos então um segundo tipo de regra semântica que estipule, recursivamente ou por outro meio, um certo conjunto de proposições as quais se considerem verdadeiras. Pode conceder-se que esta regra é clara. Sendo-o, pode dela derivar-se que uma proposição é analítica se for (não só verdadeira) verdadeira de acordo com a regra semântica.

 

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Quarta-feira, 5 de Maio de 2004
Quine # 14

§ 4º Regras semânticas

A analiticidade parecia, ao princípio, muito naturalmente definível pelo recurso ao domínio das intensões (sentido) dos termos. Ao aprofundar este caminho, esse domínio cedeu lugar às noções de sinonímia e definição. Mas, a definição revelou-se dependente da sinonímia, e esta só realmente compreensível por prévio recurso à analiticidade ela própria. Estamos assim de volta ao problema da analiticidade.

É frequente dizer-se que a dificuldade de separar os argumentos analíticos dos sintéticos se deve à vagueza ou imprecisão da linguagem ordinária, a qual se remove numa linguagem artificial com ‘regras semânticas’ explícitas. Quine vai mostrar que esta é uma falsa impressão.

A noção de analiticidade que nos ocupa é a de uma relação entre uma afirmação S e a linguagem L em que é enunciada. Ora, a caracterização do sentido do idioma ‘S é analítico para L’, com ‘S’ e ‘L’ variáveis, mantém a sua impenetrabilidade mesmo se limitarmos ‘L’ ao conjunto das linguagens artificiais.

Suponhamos, na esteira dos escritos de Carnap, uma linguagem formalizada L0 cujas regras semânticas tenham a forma de uma especificação, recursivamente ou de outro modo, de todos os enunciados analíticos de L0.


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Terça-feira, 4 de Maio de 2004
Quine # 13

Se, noutra linguagem, contendo o advérbio intensional ‘necessariamente’, ou outras partículas com o mesmo efeito, a Substituibilidade salva veritate é realmente uma condição suficiente da sinonímia cognitiva, o certo é que tal linguagem só é inteligível se a noção de analiticidade for antecipadamente entendida.

Chegamos assim a um impasse! Talvez a tentativa de explicar primeiro a sinonímia cognitiva e depois derivar dela a noção de analíticidade, seja uma aproximação desaconselhável à resolução do nosso problema. Porventura será mais profícuo tentar explicar a analiticidade sem apelar à sinonímia cognitiva.

No fim de contas, nós conseguimos derivar a sinonímia da analiticidade de modo satisfatório. Na verdade, vimos que a sinonímia cognitiva dos termos ‘solteiro’ e ‘não-casado’ na asserção (3) pela analiticidade de (3). Esta explicação resulta para qualquer par de predicados monádicos e pode obviamente estender-se a predicados poliádicos.

Termos singulares podem dizer-se cognitivamente sinónimos quando a asserção de identidade, formada pelo sinal de ‘=’ entre eles, é analítica. Enunciados podem dizer-se sinónimos cognitivos quando a bi-condicional (a junção das asserções pela partícula ‘se e só se’) é analítica.

Assim, resumiríamos esta investigação na seguinte formulação: <podemos descrever duas expressões linguísticas como sinónimos cognitivos quando elas são intermutáveis salva anlyticitate.>

Deixemos assim de lado o problema da sinonímia e vamos directos à analiticidade.


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Segunda-feira, 3 de Maio de 2004
...

                         palas atena.jpg

«Ao mortal que te encontre é difícil, ó deusa, reconhecer-te,
por muito sabedor que seja; pois a tudo te assemelhas.»

(Odisseia, XIII, 312-13)


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Domingo, 2 de Maio de 2004
Quine # 12

Ora, uma linguagem deste tipo é extensional, neste sentido: quaisquer dois predicados que concordem extensionalmente — i.é., que são verdadeiras dos mesmos objectos — são intermutáveis salva veritate. Ora, numa linguagem destas, a intersubstituíbildade dos termos com preservação da verdade não é uma garantia da sinonímia cognitiva do tipo que buscamos. Nela, a Substituibilidade dos termos ‘solteiro’ e ‘não-casado’, que conservam o seu valor de verdade numa dada asserção, não garante mais do que a verdade de (3), ou seja, a concordância extensional dos dois termos pode não assentar nos respectivos significados, mas numa mera coincidência acidental de situações de facto, tal como acontece, p.e., nas frases ‘criatura com coração’ e ‘criatura com rins’.

Claro que para a maioria dos propósitos, a concordância extensional salva veritate é a maior aproximação à sinonímia que é necessário garantir. Mas, ela é insuficiente para atingir a sinonímia cognitiva do tipo requerido para explicar a analiticidade das afirmações analíticas do 2º tipo — as que se convertem em verdades lógicas, ao substituirmos sinónimos por sinónimos — que queremos explicar.

Assim, temos de reconhecer que a Substituibilidade salva veritate, construída numa linguagem extensional, não é condição suficiente da sinonímia cognitiva do tipo requerido para dela derivar a analiticidade.


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Sábado, 1 de Maio de 2004
Quine # 11

A substituição da segunda ocorrência do termo ‘solteiro’ em (4) por um termo substituto salva veritate é, como (4), verdadeira. Mas, afirmar que (5) é verdadeira é dizer que (3) é analítica, e que os termos ‘solteiro’ e ‘não-casado’ são sinónimos cognitivos.

Ora, este argumento ocorre no contexto de uma linguagem suficientemente rica para conter o advérbio “necessariamente”, o qual se utiliza quando e só quando se aplica a um enunciado analítico, o que pressupõe uma noção prévia satisfatória do sentido de ‘analítico’.

Assim, o nosso argumento, embora não grosseiramente circular, não deixa de figurar uma certa recursividade fechada. A Substituibilidade salva veritate é sem sentido até que seja relativizada a uma linguagem cuja extensão terá de especificar-se nos aspectos relevantes.

Suponhamos uma linguagem contendo um amplo stock de predicados monádicos ‘Fx’, e poliádicos, p.e., Gxy (x Gosta de y). O resto da linguagem é de natureza lógica. Nesta linguagem as frases-atómicas consistirão, cada uma, num predicado seguido de uma ou mais variáveis, x,y, etc.; as frases complexas são compostas de frases atómicas através das funções de verdade (‘não’, ‘e’, ‘ou’, etc.) e de quantificadores.


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