Sexta-feira, 9 de Abril de 2004
Frege # 4

O conceito é uma espécie de função, em cuja expressão lógica se mostram os lugares vazios que serão preenchidos pelos argumentos da função. A insaturabilidade é o critério de discernibilidade do conceito. Na sua conceptografia, Frege obriga-nos a ver os lugares vazios em cada predicado gramatical: “f(x)” é transformado em “f(...)”:

«Se da linguagem retirássemos todas as expressões que referem objectos (nomes próprios, frases completas designatórias) e ficássemos apenas com as expressões incompletas (predicados, expressões relacionais e funcionais e as conexões – Gedankengefüge), obteríamos como que o esqueleto visível, expresso, da própria estrutura formal, lógico-linguística do pensamento.» (p.51)

Esta seria assim a situação do pensamento sem objectos, a forma do pensamento puro. A linguagem apresentar-se-ia como a imagem perceptível da estrutura do pensamento, «a veste com que as palavras recobrem um pensamento para que este possa ser reconhecido por outro homem» (p. 52).

O trabalho de Maria Luísa Couto Soares procura esclarecer, na lógica do conceito (primeira parte da obra), a peculiaridade do conceito como elemento insaturado, aberto à predicação. Na segunda parte, a semântica do conceito, a autora procura captar, através da expressão dos conceitos (os predicados), um modelo referencial que reflicta com exactidão o carácter de insaturação ou incompletude do conceito. Especificamente, interroga-se se poderá conceber-se uma noção como a de sentido de um conceito? E como pensar no par sentido / referência para as expressões de conceitos e de funções? A análise do modelo referencial próprio para as realidades incompletas, insaturadas, das quais o conceito é o paradigma, proporciona – diz a autora – inumeráveis perspectivas para uma reformulação de algumas questões ontológicas fundamentais...(p. 31).

 


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Quinta-feira, 8 de Abril de 2004
...

luz.jpg

E quando a sombra
se debilita e desaparece,
a luz que demora,
torna-se sombra duma outra luz...

(Khalil Gibran)



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Quarta-feira, 7 de Abril de 2004
Frege # 3

Os pensamentos não pertencem ao fluxo interno da consciência. Os conceitos, como componentes do pensamento, também dela se excluem. «Só a partir do contexto se pode entender o que é um conceito.» (p. 19). O conceito não precede o juízo, nem existe sem o juízo, só surge «por decomposição do conteúdo do juízo». O princípio de contextualização forma o paralelismo da linguagem / pensamento. Tal como só acedemos ao sentido de uma palavra pela frase em que se insere, assim o acesso ao conceito ocorre apenas enquanto constituinte de um pensamento» (p. 24).

Mas como justificar então que se compreenda uma proposição completamente nova? Frege sustenta que tal resulta, não de um acto mental, mas de uma certa capacidade disposicional de relacionar o sentido previamente conhecido das componentes dessa proposição nova. Mas, ele também considera que um pensamento dado pela primeira vez pode captar-se numa apreensão  episódica, o importante sendo considerar o valor de verdade do pensamento que se apresenta através de uma nova asserção (p. 27).

No entanto, o conceito, tal como os objectos, apresenta-se à mente já construído; ele não é uma construção mental a partir de sensações e percepções das mentes individuais. Contudo, os conceitos não são os objectos, nem se dão à mente como estes, de um modo acabado, saturado, completo. «Os conceitos não passam de constituintes insaturados, incompletos de um pensamento ou de um juízo.» (p. 24).


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Terça-feira, 6 de Abril de 2004
Frege # 2

Ora neste ponto podemos detectar desde já uma ambivalência que persistirá ao longo da análise de Frege. De facto, na medida em que o valor de verdade da proposição é a sua referência, então é o sentido da proposição que tem, primariamente, esse referente – a proposição também, mas de modo derivado. Assim, para entender que uma expressão tem um sentido, temos de saber o que significa ela ter uma referência, pelo que, como argumenta Dummett, antes de saber o que significa que uma proposição exprime um pensamento, temos de saber o que significa que ela é verdadeira (p. 15).

Maria Luísa Couto Soares destaca esta tensão entre o sentido, — entendido como o modo como se dá o referente —, e a necessidade do conceito de referente para explicar o conceito de sentido como a origem de várias dificuldades não resolvidas na teoria de Frege. No entanto, na peculiar ontologia realista de Frege, embora os pensamentos só sejam acessíveis aos seres humanos através de uma linguagem, natural ou simbólica, e nela essencialmente sejam exprimíveis, não está excluída a existência de pensamentos não expressos, eventualmente apreendidos «por algum outro ser, na sua nudez simbólica, sem a sua veste linguística» (p. 16).

A Autora ocupa-se na primeira parte do trabalho da Lógica do Conceito (pp. 35-131), algo que existe na realidade, tanto quanto os próprios objectos, mas que nestes «nunca se dissolve» por virtude do seu «dinamismo próprio» patente no «seu carácter funcional, transformador» (p. 31). Na segunda parte trata da Semântica do Conceito (pp. 133-258), buscando um «modelo referencial adequado» para exprimir a realidade ontológica dessa entidade que é o conceito.


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Segunda-feira, 5 de Abril de 2004
Frege # 1

Maria Luísa Couto Soares, Conceito e sentido em Frege,

Campo das Letras, Porto, 2001, pp. 278

(Uma recensão de leitura)

 

Para além do mundo físico, pluralizado em objectos concretos, e das mentes que os percepcionam, deles recolhendo dados e imagens sensoriais, há um terceiro mundo, o dos pensamentos, que se dá e apresenta à mente como uma realidade exterior à própria consciência:

«Os pensamentos não são representações, não estão incluídos no fluxo interno da consciência; formam parte do terceiro reino, real, objectivo, que se pode captar, apreender como quem vê um planeta ou um corpo celeste no firmamento.» (p. 25)

Gottlob Frege (1848-1925), matemático e filósofo da matemática, inventou uma escrita conceptual composta de fórmulas que mostram os «pensamentos tal como são em si mesmos e de acordo consigo mesmos.» (p. 17). Na verdade, embora a linguagem natural espelhe o pensamento, — o que permite analisá-lo através das expressões linguísticas —, ela não o reflecte no modo mais adequado e autêntico: «aprender lógica a partir da linguagem é como aprender a pensar como uma criança» — in carta a Husserl de 1906 (p. 14). Daqui a necessidade de construir uma linguagem mais apta, objectivo da primeira obra importante de Frege, a Conceptografia (Beggrifsschrift) justamente considerada como marco fundador da lógica moderna.

Não obstante, pode também tomar-se a obra de Frege como inspiradora da viragem linguística («linguistic turn») da moderna filosofia da linguagem. Para Frege, a compreensão dos componentes de sentido que constituem um pensamento depende da apreensão da estrutura da proposição que exprima esse pensamento. A estrutura do pensamento deve reflectir-se na estrutura da proposição que o exprime: «à decomposição da proposição corresponde uma decomposição do pensamento» — in carta a Russell de 1902 (p. 15). Contudo, para Frege, é ao pensamento que atribuímos o verdadeiro e o falso: a proposição sê-lo-á igualmente, mas só em sentido derivado.

 


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Sábado, 3 de Abril de 2004
...

logica.gif

Axioma I - Se, no mesmo sujeito,
são excitadas duas acções contrárias,
deverá necessariamente produzir-se,
em ambas ou numa só, uma mudança,
até deixarem de ser contrárias.

(Espinosa, Ética, Livro V)

 


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Sexta-feira, 2 de Abril de 2004
Ainda Platão # 19

9 —  (----->) Conclusões sobre qual a tese realista com menores desvantagens

Ao caracterizarmos o ser pelas qualificações (a) e (b) apresentadas no ponto 1., mantemos oculta uma conjunção implícita, qual seja a de o objecto assim definido ser compatível com algum observador possível (z) do objecto existente (x) o qual percepciona (O) pela propriedade (P) :  (a*)  $y  x = y Ù$z  Ozx; (b*) $P  Px Ù$z  OzxP.

Não pretende esta conjunção introduzir qualquer forma de relativismo na concepção do ser, mas apenas excluir do real, «a coisa em si» kantiana que embora «existente em si», ao ser incompatível com qualquer observador, não é real, nem realidade para ninguém.

Também não se pretende, com esta restrição, retirar à ontologia a sua independência metafísica face à temática de que se ocupa a epistemologia; antes, o objectivo é distinguir o objecto inteligível e o seu cosmos do caos ininteligível, pura multiplicidade sem forma ou propriedade, o «existente em si».

De algum modo, a caracterização (c), ao ancorar-se numa linguagem, apela para a conjunção do observador possível que reivindicamos. Porém, o flirt em que se compraz, de um nominalismo de predicados, não é confiável para subscrever uma radical autonomia do ser face ao observador, cuja estatuto é o de mera possibilidade e compatibilidade com os objectos do mundo e não forçosamente uma existência efectiva.

Isto posto, é nosso entendimento que as propriedades dos objectos existem previamente à própria existência destes. Os objectos, na sua individuação e identidade, existem; logo, são possíveis. Esta condição, a meu ver, devem-na ao facto de serem desprovidos de qualquer substância sui generis e reflectirem tão só o tropo ou feixe de qualidades que os individuam.

O problema das propriedades universais estarem localizadas fora do espaço-tempo, levanta uma questão que obscurece notavelmente a sua própria solução. Na verdade, nada do que ocorre no universo está fora do espaço-tempo, entendido este como ‘tropismo’ ou a história do próprio universo, e toda a ontologia dualista é profundamente inconveniente. Nenhum objecto é inteligível se desprovido de atributos que o individuem, os quais são primitivos ao objecto assim possibilitado. Ser real é dispor de tais propriedades e individuadamente ascender à existência. A expressão “fora do espaço-tempo” não pode, a meu ver, ser entendida como exterior ao universo, mas sim como existente em abstracto, num reino ontológico irredutível ao mundo físico ou aos estados mentais dos observadores inteligentes (os quais, em termos de possibilidade, não se restringem ao homo sapiens). No caso humano, o chamado 3º reino, onde residem os objectos abstractos, é, naturalmente, acessível por cognição tal como a bio-sociologia e a história humana das civilizações a explicam. Isto não obsta a que admitamos como possível que outros seres inteligentes possam aceder a idêntico ou superior conhecimento abstracto de como o mundo é. O 3º reino, como o conhecemos, é ‘frequentado’ segundo a capacidade e aptidões racionais próprias de cada forma de vida, viabilizada em cada cultura e civilização.

No plano realista, a liberdade conceptual de inventar objectos abstractos, numa operatória simbólica prévia e subtraída com sobriedade aos constrangimentos empíricos é, na minha opinião, uma condição de criatividade e investigação, de experiência de pensamento, qualitativamente superior às limitações do realismo aristotélico, e como tal, preferível.


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Quinta-feira, 1 de Abril de 2004
Ainda Platão # 18

Contudo, a argumentação contra o RI, não invalida por si só as teses do Realismo Aristotélico. Este afirma, na sua versão standard, que “Toda a propriedade universal de ordem 1 tem pelo menos um particular concreto como exemplo em pelo menos uma ocasião”, cf. p 7 acima.

Ora, na investigação da ciência, pode ser necessário reconhecer propriedades e relações de objectos abstractos. Este procedimento é assim inconsistente com o RA, em que todas as propriedades estão ancoradas no mundo físico. A única forma de contornar esta objecção parece ser a de reduzir os objectos abstractos a outros tipos de entidades, ao modo nominalista. Mas, já o dissemos, o preço a pagar é o de tornar mais complexa a linguagem. A matemática, disciplina que opera em supremo grau com relações, p.e., ‘a soma de ... com ---‘ , lida com abstracta, sem  ter qualquer localização no mundo físico.

Acresce que, propriedades e relações não exemplificadas em nenhuma ocasião, podem ser indispensáveis do ponto de vista da explicação causal, científica. ----> Aliás, como mostrou Hume e Quine[1], o nexo causal entre dois acontecimentos, não sendo nem uma necessidade lógica, nem uma relação observável intrinsecamente, é sempre uma relação abstracta que obtém satisfação na conjunção constante observada do par ordenado causa-efeito.

Também, na sua versão standard, o RA não exclui universais de ordem superior (>1), ainda que os restrinja à ordem 2 — ou superior, com condições especificadas — de modo a serem exemplificados por universais de ordem inferior e, como tal, estarem ancorados no mundo físico; p.e., peso, cor, forma, universais de ordem 2, exemplificados por universais de ordem 1, p.e., 1 kg, vermelho, círculo.

Ora, os particulares concretos localizados no espaço-tempo apenas exemplificam propriedades determinadas (p.e., vermelho) e não propriedades determináveis (cor), pelo que os universais de ordem 2 não são localizáveis no e-t.


[1] Refere Dagfinn Follesdal no seu artigo “Indeterminacy and Mental States” (1988) a propósito do sentido (meaning) das expressões linguísticas: «As Quine has pointed out, the situation ( ) is parallel to the situation of empirical science, where scientific theory is underdetermined by the evidence.This is simply a general feature of the hypothetico-deductive method: as long as our evidence does not pertain directly to the individual hypothesis, but only to their observational consequences, the hypothesis are underdetermined by the evidence.”(sublinhados nossos)


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