Segunda-feira, 1 de Novembro de 2004
Have a nice day # 23

Outro dia olhei pra os teus olhos, ó Vida!
E pareceu-me que me afundava no insondável.

Mas tu pescaste-me cá p'ra fora com um anzol de ouro;
riste escarninha, quando eu te chamei insondável.

"É o que dizem todos os peixes", disseste tu;
"o que eles não podem sondar, é insondável".

Mas eu sou apenas mutável e bravia,
e em tudo mulher, e nada virtuosa.

Embora vós homens me chameis "profunda" ou
"fiel", ou "eterna", ou "misteriosa".

"Mas vós, homens, presenteais sempre
com as vossas próprias virtudes, ó virtuosos!"

Assim se ria ela, a incrível; mas eu nunca creio nela
nem no seu riso quando diz mal de si mesma.


E quando um dia eu estava a falar a sós com a minha brava Sabedoria,
disse-me ela, colérica: "Tu queres, tu desejas, tu amas, e
é só por isso que tu louvas a Vida!"

Quase lhe ia dando uma má resposta,
dizendo a verdade à minha Sabedoria encolerizada;
e não há pior resposta
do que "dizermos a verdade" à nossa Sabedoria.

São assim as relações entre nós três.
Do fundo, do fundo amo apenas a Vida
- e, em verdade, amo-a mais quando a odeio!

Mas se gosto também da Sabedoria
(e por vezes demasiado),
é porque ela me faz lembrar muito a Vida!

Tem os olhos dela, o mesmo riso
e até a mesma caninha de pescar, de ouro:
que culpa tenho eu que ambas se pareçam tanto?


E quando uma vez a Vida me perguntou: Quem é essa Sabedoria?
- respondi vivamente: "Ah, sim! a Sabedoria!

Tem-se sede dela e nunca se fica satisfeito,
olha-se através de véus, lança-se a mão a redes.

Se é bela? Que sei eu!
Mas ainda serve de isca às carpas mais velhas.

É mutável e caprichosa;
muitas vezes a vi morder o beiço
e pentear-se a arrepia-pelo.

Talvez seja má e falsa,
e mulher em tudo;
mas quando diz mal de si mesma é quando é mais sedutora".


Quando isto disse à Vida, riu-se ela maldosa, cerrando os olhos.
"De quem é que estás tu a falar?" - disse ela -
"de mim, sem dúvida?

E mesmo que tivesses razão -
é coisa que se me diga assim na cara?
Mas agora fala-me lá da tua Sabedoria!"

Ai, e então abriste de novo os olhos ó Vida amada!
E de novo me pareceu que me afundava no insondável.

   (Assim cantou Zaratustra, poema em prosa)


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publicado por vbm às 19:47
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14 comentários:
De Anónimo a 11 de Novembro de 2004 às 01:13
Peter: consegui colocar a resposta acima, láno "Conversas"vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 11 de Novembro de 2004 às 00:56
Mas, sabes, Sara, o positivismo expulsa radicalmente a criatividade na explicação dos factos, firmando-se numa tão fincada proximidade com os dados que nem permite se introduza qualquer parâmetro ou factor desconhecido que tudo equilibre (na justificação de sistema), mesmo que o ónus persista de prosseguir investigando que parâmetro é esse que tudo resolve e permanece inobservado. Ora, não é assim que se equacionam os inobserváveis? E temos culpa de não possuir, desde o princípio, todos os instrumentos de observação? E vamos então ficar de mãos atadas e mentes fechadas, sem aventar onde e como explicar as coisas, e quais se devem investigar? // Já politicamente, se o positivismo é a premissa requerida para a conclusão da laicidade, então, politicamente, aceito-o.vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 10 de Novembro de 2004 às 22:05
Vasco,teens aqui um comentário ao qual não sei responder:
Hummmmm, li com toda a atenção ambos os artigos. Mas... Separemos as águas. O positivismo está para a política, como a metafísica para o conhecimento. Logo, este texto que muito bem suporta a actualidade e modernidade da metafísica, não constitui refutação do positivismo. Este último existe como sistema coerente de pressupostos ainda na génese politico-filosófica da maioria dos estados laicos, independentemente de uma possível não-aceitação da metafísica. Aliás, esta parece sim tomar outros rumos que a metalinguística poderá explicar, na imponderabilidade de todo o conhecimento, esse sim, constantemente abalado por novas possibilidades. Questão de nomenclatura, acho eu. Bravo para ambos os textos. Beijinho de boa noite. Enviado por deSaraComAmor em novembro 10, 2004 06:58 PM
Peter
(http://conversasdexaxa2.blogs.sapo.pt)
(mailto:bric_a_brac@sapo.pt)


De Anónimo a 10 de Novembro de 2004 às 21:59
Já lá fui e vi. O poema em prosa, da sabedoria e vida, de Zaratustra é uma pura delícia.vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 19:57
Vasco.Já publiquei como um post a tua resposta sobre Positivismo.Voltei para te roubar o poema,que irei publicar no Peter's ...Peter
(http://conversasdexaxa2.blogs.sapo.pt)
(mailto:bric_a_brac@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 19:33
Vasco, o Sapo tem estado off e eu arranjei outro blog.Tenho andado às voltas com ele pois o servidor (Blogger) é bastante mais complicado que o Sapo, ou, pelo menos, é diferente.Se quiser visitar está nos links do "conversas" em Peter's.Vou publicar a sua resposta sobre o Positivismo e,se não se importa, voltarei cá para "roubar" o poema do Nietzsche.Abraço.Peter
(http://conversasdexaxa2.blogs.sapo.pt)
(mailto:bric_a_brac@sapo.pt)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 12:56
:)) // Pode ler-se assim, por certo. // Ele brinca com as duas, e ama-as, ambas - e a si próprio. :) // Beijo, Vasco.vbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


De Anónimo a 9 de Novembro de 2004 às 01:01
Mas...pq é q estas "coisas" do insondável têm de ser (quase) sempre femininas!?hummmm...amok
(http://amok-she.blogspot.com/)
(mailto:amok_she@yahoo.com.br)


De Anónimo a 8 de Novembro de 2004 às 22:17
Este texto, além de uma fina ironia tem um certo humor. Vou tentar resumir o que apanhei, e desculpa se me repetir. Duas entidades personalizadas que amas: A Vida e a Sabedoria. Duas mulheres com os defeitos e virtudes que são criação de vocês homens. Sem a Sabedoria possivelmente ainda se poderia passar mas não sem a Vida, uma vez que esta te conduz à outra, pelo menos no que concerne à vida vivida. Há uma interligação implícita entre as duas. Ao contrário da Sabedoria que poderá também ser adquirida, a Vida é insondável, o mistério do amanhã, a atracção do desconhecido, que, por muito sábio que sejas, não é planeável nos seus ínfimos pormenores. Bem e assim me vou, desejando-te uma boa noite plena de sábia vivência. Bjos amita
(http://brancoepreto.blogs.sapo.pt)
(mailto:amitaf324@hotmail.com)


De Anónimo a 8 de Novembro de 2004 às 16:37
Olá amita! :)

Aquela resposta é sobre outro assunto, que não consegui colocar no blog-destinatário. // Tenho sinceramente curiosidade e gosto em conhecer o teu comentário e impressão do poema de Nietzsche. // Eu acho-o de uma suprema e fina ironia :) // abraço, Vascovbm
</a>
(mailto:vascobizarro@yahoo.com)


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