Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2005
Ainda David Hume # 4

Seria então necessário a Adão ter tido a experiência do efeito derivado do impulso das duas bolas. Ele teria de ter visto, em várias instâncias, que quando uma bola bate na outra, a segunda adquire movimento. Se tivésse testemunhado um número suficiente de instâncias deste tipo, sempre que viu uma bola mover-se em direcção a outra, ele concluíria sempre sem hesitação, que a segunda adquire movimento. O seu entendimento anteciparia a visão do evento, e formaria uma conclusão adequada à sua experiência passada.

Segue-se, então, que todos os raciocínios respeitantes a causa e efeito se fundam na experiência, e que todos os raciocínios derivados da experiência se baseiam na suposição de o curso da natureza continuar a ser uniformemente o mesmo. Nós concluímos que causas semelhantes, em circunstâncias semelhantes, sempre produzirão efeitos semelhantes. Pode agora valer a pena considerar o que nos determina a formar uma tal conclusão de consequências incalculáveis.

É evidente que Adão com toda a sua ciência jamais seria capaz de demonstrar que o curso da natureza deve continuar uniformemente o mesmo e que o futuro deve conformar-se ao passado. O que é possível não pode nunca demonstrar-se ser falso; e é possível que o curso da natureza mude, uma vez que podemos conceber tal mudança.

Nem, vou mais além, e afirmo-o, pode ele provar, por quaisquer argumentos prováveis, que o futuro deve conformar-se com o passado. Todo o argumento de probabilidade se constrói no pressuposto de haver conformidade entre o futuro e o passado, e portanto, nunca o poderá provar. Esta conformidade é uma questão factual, e se tiver de ser provada, nenhuma prova admitirá salvo derivada da experiência. Mas a nossa experiência do passado não pode ser prova de nada no futuro, senão na suposição de haver uma semelhança entre ambos. Esta é, portanto, uma quetão que não admite qualquer prova, e que tomamos como um dado (granted) sem qualquer prova.


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Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2005
Ainda David Hume # 3

Vejamos agora em que se funda a nossa inferência quando concluímos do efeito que a causa existiu, ou desta que o efeito lhe sucederá.

Suponhamos que vejo uma bola mover-se em linha recta em direcção a outra: de imediato concluo que chocarão, e a segunda entrará em movimento. Esta é a inferência da causa ao efeito; desta natureza são todos os nossos raciocínios na conduta da vida: nisto se fundamentam todas as nossa crenças na história: e daqui deriva toda a filosofia, excepto apenas a geometria e a aritmética.

Se pudermos explicar a inferência que formulamos a partir do choque de duas bolas, teremos condições de justificar e entender esta operação da mente em todas as instãncias em que ocorre.

Um homem primevo, tal Adão, no pleno vigor das suas faculdades mentais, jamais conseguiria inferir o movimento da segunda bola, do movimento e impulso da primeira.

Nada há que a razão compreenda na causa que nos permita inferir o efeito. Tal inferência, se fosse possível, equivaleria a uma demonstração, fundada numa mera comparação de ideias. Mas nenhuma inferência da causa ao efeito se equipara (amount to) a uma demonstração. Do que pode dar-se uma prova evidente. A mente pode sempre conceber qualquer efeito derivado de qualquer causa, e, de facto, qualquer evento a suceder a outro: o que quer que se conceba é possível, pelo menos num sentido metafísico: mas, onde quer que ocorra uma demonstração, o contrário é impossível, e implica contradição. Portanto, não há nenhuma demonstração para nenhuma conjunção de causa e efeito.

 


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Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2005
Ainda David Hume # 2

É evidente que todos os raciocínios referentes a matéria de facto fundam-se na relação de causa e efeito e nunca podemos inferir a existência de um objecto de outro, a não ser que estejam conexionados quer mediata ou imediatamente.

Para entendermos este tipo de raciocínios temos de nos familiarizar com a ideia de causa ; para isso, teremos de olhar em volta para encontrar alguma coisa que seja causa de outra.

Se observarmos numa mesa de bilhar, uma bola parada e outra em movimento rápido em sua direcção; chocam; a bola primitivamente em repouso, adquire movimento. Este caso é uma instância perfeita e clara da relação de causa e efeito, como qualquer outro que conheçamos por sensação ou reflexão.

As duas bolas tocaram-se antes de o movimento ser comunicado, e não houve intervalo entre o choque e o movimento. Contiguidade no tempo e no espaço é então um requisito circunstancial para a operação de causalidade.

É também evidente que o movimento, que foi a causa, precede o movimento que foi o efeito. Prioridade no tempo é então outro requisito circunstancial em qualquer causa.

Mas isto não é tudo. Se repetirmos esta experiência em circunstâncias semelhantes, sempre constataremos que o impulso da bola em movimento produz o movimento da outra. Eis então uma terceira circunstância, a saber a conjunção constante entre causa e efeito. Qualquer evento do tipo causal produz sempre um evento do tipo efeito.

Para além destas três circunstâncias de contiguidade, prioridade e conjunção constante, nada mais se descobre na causa.

Este é o caso quando ambos, a causa e o efeito, estão presentes aos nossos sentidos.

 


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Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2005
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akhenaton1.jpg

    Akhenaton e Nefritite

Quarenta séculos de laicidade.


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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2005
albert jacquard # 29

                 akhenaton.jpg

«A laicidade é a aceitação de todas as opiniões e de todos os comportamentos que saibam respeitar o outro. A unicidade de Deus proposta pelo faraó Akhenaton é efectivamente a base da laicidade.

O faraó Akhenaton [defendia] o deus único ( ) que substituísse a multidão dos deuses egípcios. [Ele seria representado por um] círculo [que] era o Sol.»

 

(op. cit., pp. 108; 213) 



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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005
albert jacquard # 28

a conjectura de Goldbach:

«todo o número par pode ser decomposto na soma de dois números primos.»

 

(op. cit., p. 202)



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Sábado, 8 de Janeiro de 2005
albert jacquard # 27

A existência de uma realidade é uma hipótese cómoda, desde que não se perca de vista que esse real só em parte pode ser atingido, e que essa limitação parece ter um carácter definitivo. Proponho, pois, que se reserve o termo «real» para o conjunto do que existe, o termo «real conhecido» para o subconjunto que engloba os elementos desse conjunto a que temos presentemente acesso, e o termo «real acessível» para o subconjunto que contém os elementos que poderão eventualmente ser conhecidos quando a humanidade tiver terminado a sua investigação.

(op. cit., p. 201)

 



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Quinta-feira, 6 de Janeiro de 2005
albert jacquard # 26

[As verdadeiras "revoluções" do sec. XX] deram-se na concepção
* da natureza, (com a física quântica)
* do tempo (coma relatividade restrita e, depois, geral)
* da entropia (com as estruturas dissipativas)
* da vida (com a complexidade)

(op. cit., p. 181)



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Terça-feira, 4 de Janeiro de 2005
albert jacquard # 25

Um conceito é científico se puder ser correctamente definido e articulado com os conceitos já definidos. P.e., a "força" é um conceito científico ( ) articulado com os conceitos de massa e de aceleração. ( ) A construção dessas conexões entre conceitos começa com a construção de uma hipótese. Proposta essa que pode levar à elaboração de uma teoria, que será dita científica se se prestar à confrontação com os factos. Lei científica: a conexão existente entre diversos parâmetros, expressa por uma fórmula matemática.

(op. cit., p. 178)



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Domingo, 2 de Janeiro de 2005
albert jacquard # 24

Costuma dizer-se que a ociosidade é a mãe de todos os vícios,
mas o excesso de trabalho é o pai de todas as submissões.

(op. cit., p. 185)



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