Sexta-feira, 30 de Abril de 2004
Quine # 10

Se assumirmos a analíticidade como factor explicativo independente, o que buscamos é uma espécie de sinonímia tal que uma verdade analítica possa converter-se numa verdade lógica, pela substituição de sinónimos por sinónimos. No nosso exemplo, teremos que ‘solteiro’ e ‘não-casado’ serão cognitivamente sinónimos tanto quanto a asserção

(1)   Todos e somente os solteiros são não-casados.

for analítica.

Contudo, o que precisamos é de um fundamento da sinonímia cognitiva que não pressuponha a analíticidade, porque queremos explicar esta com a ajuda da sinonímia cognitiva. Buscamos, assim, uma justificação independente para esta, nomeadamente que assegure a Substituibilidade dos termos sinónimos salva veritate em todos os contextos (excepto nas ocorrências de significados múltiplos dentro do próprio termo ou da sua menção).                

A questão que nos confronta é a de saber se tal Substituibilidade é uma condição suficiente da sinonímia cognitiva. Podemos constatar rapidamente que sim. A asserção

(2)   Necessariamente, todos e só os solteiros são solteiros.

é, evidentemente verdadeira. Então, se ‘solteiro’ e ‘não-casado’ forem intermutáveis salva veritate, teremos:

(3)   Necessariamente, todos e só os solteiros são não-casados.


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Quinta-feira, 29 de Abril de 2004
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                ulisses.bmp

«Interesseiro e ladrão seria aquele que te superasse
em todos os dolos, mesmo que um deus viesse ao teu encontro!»
(Odisseia, XIII, 291-2)

 


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Quarta-feira, 28 de Abril de 2004
Quine # 9

§ 3º Substituibilidade

Uma sugestão natural do que seja a sinonímia é a de Substituibilidade, salva veritate, na esteira de Leibniz: a sinonímia entre duas formas linguísticas consiste simplesmente na sua inter-Substituibilidade em todos os contextos sem alteração do valor verdade.

No nosso exemplo, os termos “solteiro” e “não-casado” não são inter-mutáveis em todas as circunstâncias; p.e., no caso da menção da palavra “solteiro” na frase ‘’solteiro’ tem oito letras’, não pode efectuar-se a substituição dos termos com a preservação do valor de verdade. Parece, assim, haver um problema, ligado à própria natureza das palavras, que pode considerar-se prévio ao problema da própria sinonímia.

Se ressalvarmos estes casos da menção de uma palavra versus o seu uso, bem como os de uma mesma palavra ser dotada de mais do que um significado (p.e., a expressão: um ‘botão-de-punho solteiro’, no sentido de que lhe falta o par), e se excluirmos os casos de associação psicológica e qualidade poética dos termos, a questão mantém-se de saber se as expressões heterónimas são ou não intermutáveis por possuírem o que podemos chamar sinonímia cognitiva.


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Terça-feira, 27 de Abril de 2004
Quine # 8

Cada idioma exterior à notação primitiva é equacionável com alguma construção complexa de termos de notação primitiva. As regras de correspondência de uma para outra linguagem são as chamadas definições que surgem nos sistemas formalizados da matemática, da lógica, etc.

Estas definições são correlações entre duas linguagens, cada uma parte da outra. Não há arbitrariedade nestas correlações. As definições mostram que as notações primitivas podem cumprir todos os seus objectivos de brevidade e conveniência, da linguagem redundante.

Daqui que o definiendum e o definiens se relacionem entre si nestas formas possíveis:

·          O definiens é uma paráfrase fiel dos termos no uso antecedente.[1]

·          O definiens, para fins de explicação, pode refinar, melhorar, o uso antecedente do definiendum.

·          O definiendum pode ser uma notação criada. em modo original, dotada de um sentido, aqui e agora.

Em qualquer caso, porém, quer na comunicação formal, quer na informal — excepto no caso extremo da introdução explícita de novas notações convencionais — a actividade de definição apoia-se em relações prévias de sinonímia. Daí que, a noção de definição não é a chave para compreender a sinonímia e a analiticidade. Vamos continuar, então, a examinar a SINONÍMIA.



[1] Quine diz que, nos casos extremos, pode preservar apenas a referência do sinónimo.


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Segunda-feira, 26 de Abril de 2004
Quine # 7

Mas há uma variante da actividade definicional, que Carnap designa por explicação, que não se limita a reportar sinónimos preexistentes. Numa explicação, o objectivo não é simplesmente parafrasear o definiendum por um sinónimo, mas enriquecê-lo por um suplemento de significado («meaning»), um sentido (intensão) refinado. Mas, mesmo na explicação, o definiendum e o definiens assentam em outros sinónimos preexistentes.

Façamos uma digressão sumária do papel da definição no trabalho teórico formal.

Nos sistemas lógicos e matemáticos, buscamos dois tipos antagónicos de economia na expressão:

·          Fluência e brevidade nas asserções de relações multi-formes (notações concisas para a abundância de conceitos)

ou

·          Economia de vocabulário e gramática (um mínimo de conceitos básicos com os quais geramos, por combinação e iteração das notações básicas, a expressão de qualquer ulterior conceito que se deseje)

No segundo tipo de economia, a pobreza do idioma básico alonga o discurso; mas, por outro lado, simplifica o meta-discurso teórico sobre a linguagem porque recorre a um número mínimo de termos e formas de construção, que são aquilo em que consiste a linguagem.

A combinação destes dois tipos de economia une por fusão dois tipos de linguagem, em que cada uma é tomada como uma parte da outra. A linguagem inclusiva resultante, embora redundante em gramática e vocabulário, é económica na extensão das mensagens, enquanto a parte referente à notação primitiva, é económica na gramática e no vocabulário.


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Domingo, 25 de Abril de 2004
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Sábado, 24 de Abril de 2004
Quine # 6

§ 2º Definição

Há quem considere tranquilizante dizer que as asserções analíticas da classe (ii) se reduzem às da classe (i), das verdades lógicas, por definição. Mas, quando e quem faz essa definição? O dicionário? Será de aceitar como lei a sua formulação lexicográfica? O lexicógrafo busca o registo de factos antecedentes, os quais reflectem a crença nas relações de sinonímia entre as formas linguísticas, o que decorre do uso destas e presumivelmente do comportamento linguístico. Portanto, a ‘definição’, reportada pela lexicografia, de uma sinonímia observada, não serve de base para a fundar.

Não só os filólogos, também os cientistas e os filósofos, ‘definem’ termos recônditos ou vulgares, por paráfrase, em termos mais adequados ao vocabulário das suas próprias teorias. Mas este procedimento afirma sempre a relação de sinonímia antecedente à exposição teórica em causa.

Podemos dizer que, afirmar uma sinonímia, identificar quais as inter-conexões necessárias e suficientes para que duas expressões linguísticas possam descrever-se como sinónimas é uma questão que é tudo, menos clara. Mas, quaisquer que sejam tais inter-conexões, normalmente elas baseiam-se no uso. Definições que reportam exemplos de sinonímia registam-nos baseados no uso.


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Sexta-feira, 23 de Abril de 2004
Quine # 5

Carnap, na esteira do conceito de Leibniz de «verdadeiro em todos os mundos possíveis», dá a seguinte explicação de analíticidade através de descrições de estado:

1.      Uma descrição de estado é qualquer especificação exaustiva dos valores de verdade dos enunciados atómicos (não-compostos) das asserções da linguagem.

2.      O valor de verdade de qualquer enunciado complexo é fixado, para cada estado descrito, por leis lógicas especificáveis.

3.      Um enunciado é explicado como analítico quando resulta verdadeiro sob cada descrição de estado.

Mas, esta versão não serve o nosso propósito de definir a analíticidade[1] porquanto só se aplica a proposições atómicas mutuamente independentes, o que não sucede com (1) e (2). Se o fossem haveria uma descrição de estado especificando o valor de verdade a ‘X é solteiro’ e ‘X é casado’, e, daí, derivar ‘Nenhum solteiro é casado’ seria uma proposição sintética, decorrente da experiência, e não analítica. O critério de analíticidade em termos de descrições de estado serve só para linguagens desprovidas de pares sinónimos extra-lógicos. Estes dão lugar, sim, à citada classe (ii) de asserções analíticas: «aquelas que podem converter-se em logicamente verdadeiras, substituindo sinónimos por sinónimos».


[1] O objectivo de Carnap com a sua linguagem-modelo não era o de esclarecer a noção de analíticidade — de que se ocupa Quine — mas sim a de probabilidade e indução.


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Quinta-feira, 22 de Abril de 2004
Quine # 4

Na tradição filosófica geral, as asserções analíticas recaem em duas classes: (i) enunciados logicamente verdadeiros; (ii) enunciados que podem converter-se em logicamente verdadeiros (substituindo sinónimos por sinónimos)

Exº de (i):

(1)   Nenhum homem não-casado é casado.

Quaisquer que sejam as interpretações ou reinterpretações dos termos “homem” e “casado”, (1) conserva o seu valor de verdade imutável. Se supusermos o inventário prévio das partículas lógicas da linguagem — “não”, “in”, “nenhum”, “se”, “então”, “e”, etc. — então, em geral, uma verdade lógica é uma asserção que é verdadeira e se mantém verdadeira sob todas as reinterpretações das suas componentes, outras que as partículas lógicas. Mas, há também uma 2ª classe de enunciados analíticos, que podemos exemplificar:

Exº de (ii):

(2)   Nenhum solteiro é casado.

Este enunciado pode converter-se numa verdade lógica se nele substituirmos o termo “solteiro” pelo seu sinónimo “homem não-casado”, assim retornando ao enunciado (1). Temos assim de esclarecer as noções de analíticidade e de sinonímia, de que a primeira parece depender.


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Quarta-feira, 21 de Abril de 2004
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«A gente continua / por causa / de uma ilusão.» (Virgínia Woolf)
Um blog a visitar, aqui: http://nosilenciodanoite.blig.ig.com.br/.

(Indicado por amook, in Bibliotec@ Sapo)

 

 



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