Domingo, 29 de Fevereiro de 2004
Ainda Platão # 1


"As coisas só na aparência têm limites
e cada uma é uma rede inextricável
e silenciosamente vertiginosa

 

mas nós temos necessidade de limites
e procuramos pela palavra e pelos gestos
rodeá-las de vagarosos contornos
para que se harmonizem com as nossas coordenadas

 

Todas as coisas estão presas embora se movam
obstinadamente no seu interior
e desejem encontrar uma saída
como se quisessem ser repatriadas
ou encontrar o seu próprio horizonte" 

 

(António Ramos Rosa, As palavras)

 

Realismo platónico versus realismo aristotélico[1]

 

 

1 — O estudo do ser enquanto ser

 

Da Filosofia Primeira de Aristóteles, os livros que vêm depois [dos] da Física, i.é., a Metafísica, na configuração actual das disciplinas, deixam-se reduzir à ontologia, o estudo do «ser enquanto ser».

Estipulado o Ser como objecto da metafísica, o seu domínio é tudo aquilo que existe ou há: todos os objectos. Sem fazer uso da distinção possível entre haver e existir — nem, com Meinong, diferenciar que objectos que não existem, por não estarem no espaço-tempo; nem, com Russell, sustentar que objectos que existem logicamente — caracterizamos, com Quine, que Ser é ser o valor de uma variável ligada: x é um objecto se e só se for o valor de uma variável quantificada ou, de um modo mais preciso,

 

(a)      x é um objecto se há pelo menos um y tal que x é idêntico a y.

 

O «ser qua ser» é considerado nas categorias metafísicas mais inclusivas (géneros últimos) e mais básicas, i.é., não redutíveis a bases mais simples. Os objectos podem dividir-se em impredicáveis (particulares) e predicáveis (atributos).

É uma verdade lógica que «Tudo é um objecto» —  $y  x = y — o que equivale a dizer "x  $y  x = y  — «Todas as coisas existem». Note-se que nesta formulação, «x é um objecto», ‘um objecto’ é já um predicado ontológico, sendo-o tudo aquilo sobre o qual se pode quantificar.



[1] O presente ensaio é orientado pela questão: «Suponha que decidimos acreditar em universais. Têm todos os universais que ter exemplos, como Aristóteles exigiu, ou devemos antes tomar o partido de Platão e admitir universais não exemplificados? São as desvantagens do realismo aristotélico  maiores do que as desvantagens do realismo platónico?». O tratamento da questão tem início na p 6, após a identificação do objecto da ontologia, a apresentação da questão dos universais, a referência às duas correntes filosóficas de resposta afirmativa e negativa sobre se ‘Há universais?’, respectivamente o Realismo e o Nominalismo e as variedades do primeiro. Assinalamos com uma seta   --> as opiniões ou argumentos pessoais insertos no conjunto do ensaio, elaborado à luz dos ensinamentos ministrados no Seminário “Tópicos actuais de Metafísica: Universais e Particulares” realizado pelo Prof. Dr. J. Branquinho, no ano lectivo 2001-2.


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Terça-feira, 24 de Fevereiro de 2004
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beijo.gif Leve mobilização de um maquinismo suave e ardente A alta fenda do ar que se me abre A torre acessível ao meu abraço, inteira e viva. Percorro-te, inundo-te: cálido tronco de água. Energia liberta, seda que vibra. Minha mulher viva. (ar.rosa)

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Segunda-feira, 23 de Fevereiro de 2004
Kripke # 9
Wittgenstein2.jpg Kripke2.jpg Bibliografia — Wittgenstein, Ludwig, Investigações Filosóficas, trad. M. S. Lourenço, F. Calouste Gulbenkian, Lisboa 1987 — Kripke , Saul A., Wittgenstein – On rules and private language, Harvard University Press, Cambridge, Massachusetts, [1982], 10th printing. — Spinoza, Baruch, Tratado da reforma do entendimento, ed. bilingue, trad. Abílio Queirós, Lisboa, Edições 70. — Zilhão, António, Linguagem da filosofia e filosofia da linguagem, Edições Colibri, Lisboa, 1993

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Domingo, 22 de Fevereiro de 2004
Kripke # 8

5 – O homo politicus e o mundo exterior

 

Se podemos convir com Wittgenstein que não é possível uma pessoa inventar um jogo que nunca foi jogado se a humanidade nunca tivesse jogado jogos (I.F. §204); reconhecendo como demonstrado que a linguagem não se esgota na denotação do mundo exterior, antes participa e conota a própria actividade dos falantes, de cuja forma de vida é reflexo; haveremos de conformarmo-nos que o homem, como todo o ser vivo, é parte do habitat em que subsiste, um efeito do mundo que o contém, e como tal, constituído pelas propriedades que possibilitam esse mesmo mundo. Assim, é-lhe possível apreender o universo de que a sua própria natureza é expressão. Daí jogar a sua sobrevivência em lances experimentais de que depreende e regista a regularidade causal ou casual que caracteriza a ocorrência de eventos no mundo que o envolve. Habilita-se, deste modo, a um jogo de sinais e de linguagem que normativamente impõe aos seus semelhantes como ordem política apta e útil à própria sobrevivência da espécie: nasce a linguagem do pensamento, o domínio de uma técnica de compreensão do mundo, a competência de manipular símbolos, a capacidade de uma acção eficaz. Instaurado o domínio do saber, logo se conquista um outro caminho, o da interrogação, um modo de distanciamento da realidade como coisa certa e concreta. Por tal método se exercita o jogo abstracto das possibilidades, cuja consistência é garantida pelo correcto uso dos símbolos o que permite denotar propriedades, mesmo que não exemplificadas em qualquer realidade existente. Assim porventura se reencontram a linguagem  e o mundo, na comum indeterminação da sua origem, no paradoxo circular e reversível de explicar um  pelo inexplicado do outro.

 


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Sábado, 21 de Fevereiro de 2004
Kripke # 7

Desta evolução de pensamento se justificaria, segundo Kripke, a «substituição pelo segundo Wittgenstein de uma semântica baseada em condições de verdade por uma semântica baseada em condições de asserção.»[i] Embora esta reinterpretação céptica possa criticar-se por excessiva, face aos propósitos declarados do próprio Wittgenstein de que o seu novo ponto de vista não pretende desenvolver uma nova teoria do sentido, mas apenas descrever como funciona a linguagem dos falantes, cuja unicidade, - provocada por ilusões gramaticais -, é rejeitada em benefício da clarificação que a comparação dos diferentes jogos de linguagem proporciona para a determinação das condições em que cada proposição faz sentido[ii]; o certo é que assiste legitimidade a Kripke em procurar encontrar, seja no primeiro seja no segundo Wittgenstein, aquilo que, na linguagem, se ajusta ao conceito de «verdadeiro» ou  aquilo a que se ajusta o conceito de «verdadeiro».[iii] E, nessa pesquisa, parece inescapável uma conclusão céptica, dada a subdeterminação de qualquer pensamento ou teoria face à realidade que se queira explicar[iv], além da dependência de qualquer expressão linguística da gramática que se constitui com o seu uso e que regula o seu significado em cada contexto adequado. No fundo, recaímos na incontornável questão platónica da inteligibilidade do real e do apelo a que a linguagem vá sempre além de si própria na concepção inteligível da existência objectiva.

Na concepção do cognitivismo platónico, que insiste e persiste em toda a linguagem, mantém-se  perene a interrogação humana sobre o que é o mundo que nos contém.


[i] Cf. A. Zilhão, Op. cit., p. 181.

[ii] Cf., L. Wittgenstein, Op. cit., §109; 117; 130.

[iii] Cf., L. Wittgenstein, Op. cit., §136.

[iv] Confronte-se com o que refere Dagfinn Follesdal no seu artigo “Indeterminacy and Mental States” (1988) a propósito do sentido (meaning) das expressões linguísticas: «As Quine has pointed out, the situation ( ) is parallel to the situation of empirical science, where scientific theory is underdetermined by the evidence.This is simply a general feature of the hypothetico-deductive method: as long as our evidence does not pertain directly to the individual hypothesis, but only to their observational consequences, the hypothesis are underdetermined by the evidence.”(sublinhados nossos)

 


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Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2004
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foruns2.jpg blogs2.jpg Foruns, blogues, ciberespaço... bah! Onde está o calor da minha amada?

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Quinta-feira, 19 de Fevereiro de 2004
Kripke # 6

4 – O conceito de jogo de linguagem como primitivo em Wittgenstein

Na sua obra de 1922, Tractatus Logico-Philosophicus, Wittgenstein define o mundo como «a totalidade dos factos» (§1.1) referindo-se estes à «existência de estados de coisas» (§2.), os quais se constituem como uma combinação ou «conexão entre objectos (coisas)» (§2.01). A estas definições de partida, de carácter ontológico, liga-se o pensamento que é «a imagem lógica dos factos» (§3.) que se exprime na proposição, «de modo perceptível aos sentidos» (§3.1). Toda a perspectiva semântica - «a totalidade das proposições é a linguagem» (§4.001) – paira assim na ontologia factual em que assenta o Tractatus. Nas Investigações Filosóficas, escritas entre 1945 e 1949, Wittgenstein aborda os problemas da filosofia da linguagem de um modo mais aberto «à diversidade de usos e papeis desempenhados pelas expressões linguísticas nas mais variadas situações»[i], os quais configuram uma multiplicidade de jogos de linguagem, muito para além da estrutura lógica da linguagem elaborada no Tractatus. A expressão jogo de linguagem realça então «o facto de que falar uma língua é uma parte de uma actividade ou de uma forma de vida[ii] que é assumido como um conceito semântico primitivo, no qual e do qual se podem inventar jogos que nunca foram jogados, e dar sentido a regras criadas no seio de cada jogo de linguagem, como instância determinante de comportamento normativo.



[i] Cf. A. Zilhão, Op. cit., p. 182.

[ii] Cf., L. Wittgenstein, Op. cit., §23, p. 189 (itálico nosso).

 


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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2004
Kripke # 5

Aplicando este modelo ao paradoxo de Wittgenstein diremos que não há nenhum evento específico de compreensão do sentido de um regra do qual se siga um comportamento específico de obediência à regra; pelo contrário, diremos que a regra é cumprida desde que a acção se conforme aos padrões a que estamos acostumados e dela se siga um resultado conforme à expectativa dos nossos hábitos; outrossim, é legítimo afirmar que o sentido de uma regra é compreendido e a intensão da sua ideia obtida desde que aquele que a cumpre se mostre apto a agir habitualmente no modo adequado à obtenção dos resultados esperados, reconhecendo como errados quaisquer eventuais comportamentos desviantes.

No caso do nosso exemplo matemático, a intensão de adição quando se usa o sinal ‘+’ não consiste em nenhum facto x do mundo externo ou da mente denotado por tal adição e símbolo; pelo contrário, é por se constatar que o modo de cálculo dá como resposta os resultados esperados segundo o modo de proceder dos outros (membros da comunidade), que o indivíduo é considerado apto e competente na técnica ou prática da adição, repudiando-se como desviante e errado qualquer fortuito ou casual desempenho “quaditivo”. «Os conceitos de correcção no uso ou de boa aplicação [de uma regra] são [assim] determinados pelo modo de agir da comunidade no seu todo», e todas as adições do passado não são interpretadas como “quadições” porque esse «não é o modo de proceder dos membros da comunidade em que nos inserimos»[i] [ii]



[i] Cf. A. Zilhão, Op. cit., p. 153.

[ii] A brevidade deste ensaio não permite explanação da teoria neste ponto. Note-se, contudo, que ela não se reduz a uma mera explicação behaviorista do comportamento, caso em que não passaria de uma versão da explicação disposicionalista, acima apresentada, agora alargada ao todo da comunidade. As condições de assertibilidade do sentido de uma regra ou do uso correcto de uma expressão linguística apenas ilustram as condições suficientes para a elocução de asserções justificadas, mas não implicam que a resposta que de tais condições alguém dê seja, por definição, correcta, mas tão só que ninguém se sentirá justificado em considerar tal resposta errada. Vide Saul A. Kripke, Op. cit., pp. 111-2.

 


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Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2004
Kripke # 4

3 —  A solução céptica

Não há assim nenhum facto x, seja do mundo externo ou no interior da mente, que possa constituir a intensão da adição quando se usa o sinal ‘+’. Kripke, na esteira de Wittgenstein, dá portanto razão ao céptico, mas, na base do modelo humeano, vai apresentar uma solução céptica do problema. Segundo Hume, ninguém, nem mesmo Deus, pode observar qualquer conexão causal entre um evento específico a e o evento específico b que lhe suceda. Apenas, a sua contiguidade e conjunção constante são dadas observar, nenhuma relação existindo entre dois eventos que possa significar essa noção de que um causa ou produz o outro[i]. Somente quando os eventos particulares a e b possam considerar-se subsumidos nos eventos-tipo, A e B, em que de modo generalizado todos os eventos do tipo A são seguidos por eventos do tipo B, é que podemos dizer e significar que a ‘causa’ b. Somente na medida em que os eventos específicos são inteligíveis como exemplos de eventos-tipo relacionados por regularidades constatadas é que os podemos pensar como ligados por uma conexão causal, a qual não é aplicável a eventos particulares.[ii] Deste modo, se inverte a prioridade de uma lógica necessitarista do antecedente condicional – ‘Se eventos do tipo A causam eventos do tipo B, e se ocorre um evento e do tipo A, então segue-se-lhe um evento do tipo B’ – para um espírito de observação das condições de assertibilidade da contra-positiva da consequente condicional – ‘Se um evento e do tipo A ocorre sem que lhe suceda um evento do tipo B, então não há uma conexão causal entre os dois eventos-tipo’. Ou seja, é pelo costume ou hábito da regularidade sucessiva dos eventos, que mudamos de uma suposição da casualidade para uma convicção de causalidade.[iii]



[i] Cf. Kripke, op.cit. pp. 67-8; 93-4.

[ii] O que, em termos de realismo platónico, poderia compreender-se por os objectos físicos serem desprovidos de qualquer substância sui generis, não sendo mais do que tropos ou feixes de propriedades, estas sim, entidades primitivas constitutivas do ‘mobiliário do mundo’, por algum jogo atomístico de probabilidade na  formação de conjunções viáveis de propriedades das quais se possibilitariam os objectos individuados.

[iii] A capacidade de sobrevivência dos seres vivos depende claramente da adequação ao respectivo habitat, em que se substancializa o princípio humeano do hábito ou costume. Há um sentido inato de similaridade em todas as espécies animais. Dizia Quine, “as criaturas que se desviam notoriamente do número médio de repetições — suficiente para mudar de uma hipótese de casualidade para uma convicção de causalidade — têm a tendência infeliz, mas louvável, de morrer sem deixar descendência”. E, de facto, o mundo é regulado por causas; ser sagaz é ser sensível à repetição.


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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2004
...

venice.jpg 

«Imaginai qualquer coisa já sabida, já agarrada, arrancada já da obscuridade,
numa língua voluntariamente e de bom grado esquecida,
logo após se ter levado a cabo o acto clarificador da compreensão-execução...

Em poesia só vale a compreensão executante - que não seja de modo algum
passiva, que não reproduza e não parafraseie.

A satisfação semântica equivale ao sentimento da ordem executada.»

(Maria Filomena Mölder, A imperfeição da filosofia, Relógio d'Água, Lisboa 2003, p. 65)



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