Quinta-feira, 14 de Abril de 2005
Ainda David Hume # 24

sec 8, II, §§ 75-81

q       A doutrina da necessidade e da liberdade, como acima explanada, é não só consistente com a moralidade, como essencial à sua corroboração. (§ 75)

q       Todas as leis se fundam em recompensas e castigos. para o que se presume como princípio fundamental os motivos da acção terem uma influência regular e uniforme sobre a mente. A não ser sob a doutrina da necessidade as acções censuráveis não comprovariam princípios criminosos ínsitos na mente. (§ 76)

q       Igualmente a liberdade — na ideia que dela pode formar-se pela impressão oposta à coacção —  é também essencial à moralidade porquanto não se louvam ou censuram acções que provenham inteiramente de violência externa. (§ 77)

q       Pode prever-se a objecção seguinte a esta doutrina da liberdade e necessidade: Sendo as acções voluntárias sujeitas às mesmas leis da necessidade com as operações da matéria, haverá uma cadeia contínua de causas necessárias que remonta até à causa original de tudo. Não existe contingência em qualquer parte do universo; não há indiferença; não há liberdade. O Autor último de todas as nossas volições é o Criador do mundo. Por conseguinte, ou as acções humanas não podem ter torpeza moral ou, se a têm, implicam o nosso Criador na mesma culpa. Vamos examinar separadamente as duas partes desta objecção: a) que as acções humanas não podem ser criminosas; b) que devemos retractar o atributo de perfeição que adscrevemos à Divindade por ser o autor último da torpeza moral das suas criaturas. (§ 78)

q       A resposta à primeira objecção parece óbvia e convincente: entender todo o mal físico como parte essencial de um sistema benevolente e que, possivelmente, não pode ser eliminado pela própria Divindade sem admitir um mal ainda maior ou excluir um bem maior, —que de tal resulte —, não pode habitar em constância a nossa mente e muito menos quando somos atacados pela dor ou a paixão. (§ 79)

q       Com o mal moral sucede o mesmo que com o mal físico. Nenhuma meditação filosófica, — que conjecture tudo estar bem em relação ao Todo, e que as qualidades que perturbam a sociedade são tão benéficas e adequadas como as que directamente fomentam a felicidade e o bem estar —, conseguirá contrabalançar os sentimentos naturais da mente humana e o ressentimento moral contra o crime. (§ 80)

q       A segunda objecção não admite resposta tão fácil. Reconciliar a indiferença e a contingência das acções humanas com a presciência ou defender decretos absolutos e isentar a Divindade da autoria do pecado — eis o que se revela exceder todo o poder da filosofia. Feliz dela se regressar à sua verdadeira e peculiar província, o exame da vida comum, sem se arrojar a tão ilimitado oceano de dúvida, incerteza e contradição. [qual o que rodeia os sublimes mistérios que a razão natural é muito incompetente para abordar]. (§ 81)

 


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publicado por vbm às 17:52
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